Ana Carina Santos

Primeiro, ela pensou em montar uma livraria em São Paulo, seguindo a tradição da família em Belém. Depois de um estágio acompanhando de perto todos os processos, burocracias e obstáculos vencidos para manter a Jinkings funcionando com bons livros nas prateleiras, Ivana Jinkings chegou à conclusão de que não seria uma boa idéia. Aliás, seria uma idéia muito cara para iníciar um negócio. Ainda assim, os livros é que ofereceram o caminho: montou a Boitempo, editora com quatro anos de existência e que já levou três prêmios Jabuti, conquistando seu lugar ao sol no difícil mercado nacional de livros. O segredo? Paixão pelas letras, um apuro editorial raríssimo, com Ivana acompanhando pessoalmente passo a passo o processo de feitura dos lançamentos e um pouco de teimosia paraense, também, de não deixar a qualidade cair mesmo quando as tiragens pequenas e as vendas difíceis ameaçam fechar o bom tempo.

Em entrevista exlusiva ao Cartaz, Ivana falou de livros, da influência do pai em suas escolhas, de prêmios, de família, Belém e dos novos projetos da Boitempo.

Apesar de ter formação como Bióloga, você sempre trabalhou com texto, pelo menos desde que foi para SP. Como aconteceu essa aproximação com a palavra?

Bom, eu cresci no meio de livros. Meu pai começou a Livraria Jinkings em nossa casa, quando eu era ainda menina, e acho que essa proximidade física de alguma forma fez com que todos os filhos entrassem em contato com a leitura muito cedo. Ler era quase uma “tarefa” que, cumprida, rendia muitos pontos com o papai. Mas profissionalmente comecei a lidar com texto quando vim para SP, em 83, e fui trabalhar no jornal Voz da Unidade, então órgão central do PCB. De lá fui para a editora Ática e em seguida para a Atual, Meio & Mensagem, Scritta e Abril até montar a Boitempo, em setembro de 1995.

Onde você percebe as influências de seu pai nos caminhos que tem escolhido para a editora e para sua vida profissional?

Em tudo. A começar pela escolha do nome, Boitempo (um poema e um livro do Drummond), que era como se chamava uma pequena editora que meu pai teve, em plena ditadura, em sociedade com o também dirigente comunista Carlos Sampaio. Quase todos os livros editados por eles eram apreendidos pela Polícia Federal antes mesmo de chegar às livrarias e por isso – além da dificuldade de se manter uma editora, pequena, longe dos grandes centros – a primeira Boitempo fechou. Quando resolvi montar uma editora, escolhi esse nome como forma de homenagear meu pai (além do Drummond, é claro). E, ainda sobre a influência do meu pai, sinto que a formação de esquerda, humanista, que ele e mamãe deram a nós foi definitiva para os caminhos que escolhemos. Ela não se perde quando eventualmente um ou outro filho deixa a militância partidária, como é o meu caso. Essa formação orienta minha vida, na editora e fora dela.

Quais as dificuldades de manter uma editora pequena com a preocupação de qualidade de texto e editoração que a Boitempo tem num mercado como o brasileiro?

Olha, essa é realmente uma questão bem delicada. Não é fácil manter a qualidade do texto – contratando bons tradutores, preparadores, revisores –, do papel, do acabamento, e no final ter de praticar um preço de capa compatível com o do tal “mercado”, que na maioria das vezes não leva em conta essas diferenças e se baseia no número de páginas para estabelecer um preço médio. Uma editora como a Boitempo, que tem tiragens em torno de 2.000 exemplares, compra papel a preço mais alto que as grandes editoras (que compram em toneladas), paga impressão também a um preço unitário maior, fotolitos, tudo é mais caro para o pequeno editor, que ainda enfrenta maior dificuldade na hora de distribuir seus livros, porque a eles é exigido desconto maior no preço de capa.

Três jabutis em quatro anos. Que tipo de importância tem um prêmio num mercado como o nosso? Influiu nas vendas? Deu projeção?

O Jabuti ainda é o prêmio de maior prestígio no meio editorial. Pra mim foi muito bom ter esse reconhecimento, desde o primeiro ano da Boitempo. Agora em termos de venda, confesso que não faz muita diferença, não. De um modo geral, os livreiros não trabalham adequadamente o Jabuti, não há (com raríssimas excessões) quem faça exposição privilegiada dos livros premiados e com isso o público leitor pouco tem acesso a esses títulos.

Por que há tão poucas mulheres no mercado editorial brasileiro?

Não há poucas. Acho que há poucas mulheres à frente de uma editora e a razão deve ser a mesma de porque ainda há menos mulheres nos postos de mando, em qualquer grande empresa, na vida pública e por aí afora. Mas nós estamos, aos poucos, ocupando o nosso lugar de direito.

O olhar feminino influi de que maneira na seleção de projetos editoriais?

Não sei, nunca pensei sobre isso. Talvez na apresentação gráfica, que procuro sempre tocar com cuidado, atenta a pequenos detalhes.

É possível uma editora manter a publicação de livros de qualidade sem o, digamos, apoio financeiro da venda de best sellers? Qual a penalidade dessa opção?

É possível, se essa editora encontra o seu nicho fora do esquema best seller. O que não impede, é óbvio, que se queira ter títulos vendendo bastante, chegando ao maior número de leitores possível. A opção por textos de qualidade – e que muitas vezes interessam a um número pequeno de leitores – tem um custo. Eu já recusei mais de uma vez originais, porque não se enquadravam na linha editorial da Boitempo, e que depois foram para outras editoras e venderam aos montes. Dá uma certa dor, mas acho que eu não posso editar sociologia, filosofia, boa literaturam e, de repente, cair na tentação dos auto-ajudas da vida. Este é o preço, mas acho que vale a pena pagar.

Além de clássicos há os novos. Como os novos autores chegam a vocês? Há muita procura? A Boitempo se interessa por lançar estreantes?

Chegam muitos originais aqui. Pra você ter uma idéia, nesse momento eu tenho 93 originais esperando avaliação. Por isso esse trabalho acaba sendo demorado, mais do que os autores em geral gostariam, mas não tenho como resolver isso num prazo curto. Lançar estreantes é sempre um risco, mas eu não me arrependo dos livros de estreantes que lancei. Há um, em especial, de que gosto muito: Histórias de remorsos e rancores, de Luiz Ruffato. É um livro de contos curtos, muito bem escrito, que foi elogiadíssimo em todos os jornais do Rio e São Paulo.

Há algum projeto de a Boitempo lançar livros de paraenses? Nomes como Dalcídio, por exemplo, que extrapola o limite do regional, estão esquecidos.

É verdade, eu tenho pensado sobre isso. Eu já lancei o romance de um paraense (Os éguas, do Edyr Augusto Proença), vou publicar um trecho do Marajó, de Dalcídio, numa antologia belíssima que vamos lançar no final deste mês (Com palmos medida – terra, trabalho e conflito na literatura brasileira, organização de Flávio Aguiar), o professor Benedito Nunes está fazendo o texto de orelha de um livro de/sobre Antonio Cândido que sai em agosto e vou também publicar um livro de contos da Lucinha (Maria Lúcia Medeiros) e outro do Alex Fiúza de Melo (Marx e a globalização). Está nos meus planos também a edição de um livro do antropólogo paraense Orlando Sampaio Silva sobre índios e caboclos da Amazônia.

Em entrevista ao Jornal da Tarde você disse que a editora não investiu em divulgação nos meios acadêmicos, mas tem havido adoção de títulos seus pelas universidades e boa parte da produção de vocês é voltada para o meio acadêmico. Em contrapartida, os lançamentos literários são mais difíceis de se manterem nas vendas. Qual o caminho que você vê para a sustentação da Boitempo? É investir cada vez mais em filosofias e ciências?

Eu tenho investido mais em ensaios do que em literatura, nos últimos dois anos, mas não só por uma questão de sobrevivência. É que a grande maioria dos originais que recebo são da área de humanas. Mas para este ano e o próximo tenho várias obras de ficção programadas. Entre elas um romance histórico, Anita, de Fávio Aguiar, que tem como pano de fundo a vida de Anita e Giuseppe Garibaldi, e um clássico de Jack London nunca publicado no Brasil, O tacão de ferro, que é uma obra-prima da literatura universal.

Aliás, por que a literatura perde-se e empoeira-se nas prateleiras das livrarias? O que dificulta a venda?

Em parte porque há um acúmulo muito grande de lançamentos, que o mercado não absorve. Como os livreiros e distribuidores se alimentam de novidades, as grandes editoras lançam até trinta títulos num mês. Destes, um ou dois sobrevivem à fase pós-lançamento e bancam os que ficaram na primeira tiragem. O resto vem um pouco para fazer número, mas atrapalham bastante os lançamentos de outras editoras. É um mercado que se comporta de forma autofágica: os editores disputam uma fatia pequena da população, que compra livros, e fica torcendo para essa fatia comprar, em vez de três, quatro ou cinco livros no final do mês. Eu costumo dizer que os lançamentos crescem em proporção geométrica e os leitores em proporção aritmética. Daí o problema...

Qual o melhor caminho para a formação de leitores?

Melhores escolas, uma política pública de incentivo à leitura. Num país onde 20% da população é analfabeta, não é de se estranhar que o número de leitores habituais, desses que que se abastacem regularmente dos melhores lançamentos, seja tão pequeno. Acho que os editores têm um papel aí, que é o de lançar títulos de bom nível, etc., mas não se pode mudar toda uma postura, que é cultural, sem uma política séria dos nossos governantes. E o que se constata tristemente é que não há interesse maior de investir nessa área, não é prioridade mesmo.

Como aproximar a nova geração dos livros?

Tem uma coisa que eu sinto em relação às crianças, que é o seguinte: o apelo da TV, dos vídeos e de toda essa parafernália eletrônica é muito forte, todo mundo sabe. E em geral as escolas fazem as chamadas “leituras obrigatórias” se tornarem tarefas muito chatas. O grande desafio é fazer da leitura um hábito prazeiroso, desde pequenos. Meus filhos gostam de ler e eu e Zeca, meu marido que é também editor, procuramos incentivá-los nesse sentido. A Daniela, a mais velha, durante uma época foi uma leitora voraz, lia tudo o que via pela frente. Agora, na adolescência, lê menos, mas ainda gosta de bons livros. Já o Kim, o do meio, foi sempre um pouco mais preguiçoso pra ler mas anda bem empolgado com a literatura “engajada” e está lendo Olga, do Fernando Morais. E tenho o Luca, de dois anos, que começa a curtir ouvir historinhas e manuseia bastante os livros que tem.

Qual o perfil de seu público leitor?

Acho que é um público exigente, que gosta de livros bem feitos, bem cuidados. Percebo isso inclusive pq as pessoas comentam e opinam sobre as criações das capas, o papel que usamos.

A pergunta clássica: por que livros são tão caros no Brasil?

É aquela velha história: difícil saber se o livro é caro porque vende pouco – e as tiragens são pequenas – ou se vende pouco porque é caro. A saída, como já disse, seria uma política pública de apoio, de incentivo às edições, às compras de bibliotecas públicas, por aí.

Para mudar de assunto drasticamente: saudades de Belém? De que você sente mais falta da Amazônia?

Ah!, eu tenho sempre muita saudade da família. Além deles, me faz falta o tacacá, que não chega aqui, e bacuri. Cupuaçu e açaí agora se encontra em tudo que é canto, mas nem sei se gosto muito de ver tanta gente tomando. Sei que é uma coisa meio besta, um tipo de ciúme provinciano, mas fico com a sensação de que estão se apropriando das nossas coisas daí.

Quais seus próximos projetos e qual deles está gerando mais expectativa?

Um dos próximos lançamentos da Boitempo será a antologia Com palmos medida - terra, trabalho e conflito na literatura brasileira, organizada pelo Flávio Aguiar, da USP, ilustrada pelo Ênio Squeff e com prefácio de Antônio Cândido. A edição está ficando lindíssima, com dois cadernos em quatro cores e um formato superbonito. Com as comemorações dos 500 anos, aposto que vai ficar em evidência. Além dele tem o Anita, um livro do Antonio Cândido, dois do Roberto Mangabeira Unger e um do Frei Betto e Emir Sader, Contraversões, que são muito bons.

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05/03/2013 - Marx: a criação destruidora
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