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Title: CINISMO E FALÊNCIA DA CRÍTICA [Cynicism and the Death of Criticism]
Author: Vladimir Safatle
Pages: 216
ISBN: 978-85-7559-118-5

A generic and apparently imprecise term – cynicism – is Vladimir Safatle’s point of departure in Cynicism and the Death of Criticism for understanding the dynamics of rationalization that rule the different spheres of socialization in contemporary capitalism. The author believes that one can observe in relatively autonomous dimensions of the social world a certain cynical rationality, the raw material of the organization of today’s capitalist societies. After the crisis of old ways of thinking, a certain stability seems to have taken root, making dominant in contemporary society a single way of thinking that inhibits the introduction of new realities. In a context of social relations based on a cynical attitude, this means the death of any critical reading and other forms of rationalization. One of the work’s challenges is to understand what the author refers to as the “stabilization” of this state of decomposition. In Cynicism and the Death of Criticism, cynicism is revealed not only as a distortion of moral principles, but also a failure to understand rationality as a process of constituting values. Cynicism brings with it the death of a certain kind of social criticism; after all, in this regime of “cynical rationality, criticism can no longer be considered an indication of gaps to be closed between concrete social situations and normative ideals,” says Safatle. With this perspective, the six essays in this volume address topics such as dialectics, sexuality, aesthetics and politics, reviving concepts developed by Adorno, Freud, Lacan and Hegel, among others, and showing that cynicism has spread through all spheres of current critical thinking – and that it needs to be problematised.

About the author - Vladimir Safatle is a lecturer in the University of São Paulo’s Department of Philosophy and is one of the coordinators of the Social Theory, Philosophy and Psychoanalysis Research Lab (Latesfip/USP). He has also been a visiting professor at the universities of Paris VII and VIII.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: PublishNews
Data: 2008-08-01
Autor:
Comentário Boitempo:
Título: Racionalidade cínica
Matéria:
O cinismo dá partida à obra Cinismo e falência da crítica (Boitempo Editorial, 216 pp., R$ 36), de Vladimir Safatle, visando compreender as dinâmicas de racionalização que regem as várias esferas de socialização no capitalismo contemporâneo.

O autor aponta que é possível observar em dimensões relativamente autônomas da vida social uma certa racionalidade cínica, matéria-prima da organização das sociedades capitalistas atuais.

Em seis artigos que compõem o volume, são abordados temas como dialética, sexualidade, estética e política, resgatando conceitos desenvolvidos por Adorno, Freud, Lacan e Hegel, entre outros pensadores, mostrando que o cinismo se alastrou em todas as esferas do pensamento crítico atual - e que problematizá-lo é preciso.

No dia 5 de agosto, terça-feira, às 19h30, o tema será abordado em um Debate no auditório da faculdade de geografia - FFLCH - USP (Rua do Lago, 717 - Cidade Universitária - SP). Já a noite de autógrafos ocorrerá no dia 13 de agosto, quarta-feira, às 18h30, na Livraria Martins Fontes Paulista (Avenida Paulista, 509, loja 17).

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Estado de S. Paulo
Data: 2008-08-05
Autor:
Comentário Boitempo:
Título: Obra de Vladimir Safatle discute o sentido da crítica na atualidade
Matéria: As antigas formas de pensar vieram a pique e o fim das ideologias foi proclamado. Para discutir essas e outras idéias, Vladimir Safatle, professor de Filosofia da USP, escreveu Cinismo e Falência da Crítica (Boitempo, 216 págs., R$ 36), seis artigos que abordam temas como dialética, sexualidade, estética e política, resgatando conceitos de Adorno, Freud, Lacan e Hegel. Ele será lançado hoje, às 19h30, em debate no Auditório de Geografia da USP (Rua do Lago, 717), do qual participam Paulo Arantes, Maria Rita Kehl e Christian Dunker.
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: O Estado de S. Paulo
Data: 2008-08-10
Autor: Vladimir Safatle
Comentário Boitempo:
Título: Os complôs contra o desejo
Matéria: Obra de Michel Onfray é reducionista, pois trata a história do pensamento como um Fla-Flu paranóico

Faz algum tempo a que se assiste, principalmente no Brasil, um certo interesse renovado pela filosofia. Fenômeno para o qual convergem disposições contrárias, em larga medida ele parece alimentado pela expectativa de descobrir, na dita "sabedoria dos antigos", o segredo de uma vida feliz e realizada. A filosofia acaba comparecendo, nesse contexto, como uma espécie de auto-ajuda de luxo que se reduz a um conjunto heteróclito de reflexões sobre formas de vida ditas mais harmoniosas.

Mas para que tal mutação seja possível, as questões filosóficas precisam passar por uma diluição no campo mais geral da cultura. A língua que as enuncia não deve mais assustar, a filosofia deve falar conosco na gramática clara do senso comum. O que implica não admitir perguntas sobre o caráter distorcido da própria gramática do senso comum. De qualquer forma, a semiformação característica de nossa época sente-se reconfortada ao descobrir que, no fundo, não haveria distância entre Mettalica e as reflexões sobre o imperativo categórico ou entre Matrix e Platão. A separação entre a filosofia, pensada como discurso que visa permitir a crítica dos princípios de racionalidade que sustentam nossos valores, e a linguagem publicitária de máxima visibilidade que nos coloniza é vista como terrorismo de acadêmicos que querem tirar as indagações filosóficas do seu contato imediato com a vida. Coisa de gente reativa. Esta filosofia que se faz "nas universidades" não passaria de um discurso morto. Lutemos pois por fazer da filosofia "uma coisa interessante".

No fundo, é no interior desse projeto geral que se move Michel Onfray. Responsável por livros que viraram "best-sellers filosóficos", Onfray se vê como cavaleiro militante a serviço de um hedonismo expostos em livros como A Arte de Ter Prazer, Tratado de Ateologia, A Razão Gulosa, entre outros. Agora, com seu Contra-História da Filosofia (tomo 1: A Sabedoria dos Antigos), ele resolveu mostrar como a história "oficial" da filosofia é, no fundo, um grande complô urdido durante 25 séculos contra as forças materialistas dos prazeres e do corpo.

Nesse complô feito devido ao pretenso "ódio ao mundo terreno, aversão às paixões, às pulsões, aos desejos, desconsideração ao corpo, ao prazer, aos sentidos, culto às forças noturnas, às pulsões de morte" cabem Platão, Descartes, Kant e, o pior de todos, Hegel. Todos esses "idealistas" teriam por verdadeira função desqualificar a alegria de viver própria aos "materialistas", mestres apagados ou distorcidos pela história oficial do pensamento dominante. Através da redução da história da filosofia à secular batalha entre "idealismo" e "materialismo" que procura se apoiar em uma leitura problemática dos momentos mais belicistas de Nietzsche e Deleuze, Onfray quer nos fazer acreditar em uma historiografia intelectual muito próxima de uma espécie de Fla-Flu paranóico onde se trata, principalmente, de denunciar grandes complôs universais contra a vida e a pulsação libertária do desejo.

É claro que colocações desta natureza só funcionam no plano da mais crassa generalidade. Afirmar que há uma linha reta que vai de Platão até Hegel, passando por Descartes e Kant, só é possível através da desconsideração sumária de um trabalho minimamente sério com os textos. Daí porque o autor se volta contra aquilo que ele chama de "microleitura - que se tornou esporte nacional da Universidade européia". De nada adiantaria lembrar que, por exemplo, entre Kant e Hegel perpassa a confrontação radical de uma filosofia que aceita a distinção entre vontade racional e desejo patológico e outra para a qual tal distinção não tem lugar exatamente porque as pulsões não são vistas como irracionais. De nada adiantaria porque, com Onfray, estamos no domínio da simples esconjuração, e não no domínio da leitura de textos. Trata-se de esconjurar fantasmas que não dizem nada de preciso, como "a historiografia dominante no Ocidente liberal é platônica" ou que ela é um discurso oficial "único, canônico e incontestável"; o que é simplesmente falso, já que basta comparar a história da filosofia do século 20 escrita no interior da tradição francesa com esta pressuposta pela tradição analítica para encontrarmos diferenças significativas de análise, de avaliação e escolha.

Sobre as leituras que Contra-História da Filosofia apresenta de alguns filósofos que tradicionalmente chamamos de "pré-socráticos" (o que realmente não é um termo feliz - e nisto Onfray tem razão -, pois o termo se insere em uma estratégia de elevação do Sócrates de Platão a momento ordenador geral da filosofia antiga), só podemos dizer que elas são profundamente dogmáticas. O tom sempre é apologético e edificante. As diferenças entre, por exemplo, a autarkeia dos cínicos gregos e o hedonismo epicurista são simplesmente ignoradas, como se as articulações propostas pelo livro fossem absolutamente evidentes. Não há, em momento algum, discussões sobre leituras distintas. Tudo se passa como se praticamente ninguém tivesse falado alguma coisa sensata sobre Diógenes, Demócrito, Epicuro, Lucrécio antes de Onfray. Questões mais complexas, como, por exemplo, o problema do naturalismo da teoria cínica da linguagem e sua crítica dos universais, são sempre evitadas, talvez porque Onfray conhece bem o leitor que tem.

Por fim, vale a pena uma consideração de ordem geral. O autor parece fazer tudo isto por acreditar que a afirmação do hedonismo, do prazer solar e do corpo teriam potencial político explosivo em um mundo, como o nosso, onde o saber seria ainda marcado pela negatividade e pelo ascetismo repressivo. No entanto, ele não vê como seu ideal solar, no fundo, não é muito diferente do que podemos atualmente encontrar em qualquer manual de aconselhamento sobre os segredos de "ser você mesmo sem medo de ser feliz". Há muito os discursos sociais repressivos não são hegemônicos, pois a incitação ao prazer transformou-se em dispositivo disciplinar maior de nossas sociedades de consumo. Nesse sentido, sua "sabedoria dos antigos" parece estranhamente contemporânea.

Vladimir Safatle, professor de filosofia da Universidade de São Paulo, é autor de Cinismo e Falência da Crítica (Boitempo)
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Folha de S. Paulo
Data: 2008-08-13
Autor:
Comentário Boitempo:
Título: Vladimir Safatle autografa livro
Matéria:
A livraria Martins Fontes (av. Paulista, 509, tel. 0/ xx/11/2167-9900) realiza hoje, das 18h30 às 21h30, a noite de autógrafos do livro "Cinismo e Falência da Crítica" (Boitempo, 216 págs., R$ 36), de Vladimir Safatle, professor doutor do departamento de filosofia da USP. A obra parte do termo cinismo para discutir temas como dialética, sexualidade, estética e política.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Valor Econômico
Data: 2008-08-15
Autor: Cadão Volpato
Comentário Boitempo:
Título: Puro desconforto contemporâneo
Matéria:
Em "Cinismo e falência da crítica", Vladimir Safatle faz um estudo filosófico dos tempos modernos

Pensar não parece ser um dos atributos mais valorizados do nosso tempo. Tudo se transforma em tal velocidade e tão grande dimensão que ao indivíduo só resta, muitas vezes, o trancar-se em casa e contentar-se com as benesses que a tecnologia oferece - quando se pode chegar até elas. Além disso, um pouco de senso de humor, para não enlouquecer, se faz necessário. Mas como alimentá-lo em meio às pressões sinistras do cotidiano, alimentadas pela violência real e institucional, cada vez mais próxima, cada vez mais familiar?

Cinismo talvez seja a resposta - o cinismo como principal arma do homem moderno, esmagado pela música incessante e descabelada do consumismo, pelas exigências da moda e pelo império da forma física. Se não é fácil viver no mundo capitalista, é mais difícil ainda pensar debaixo de seus poderes.

Neste "Cinismo e Falência da Critica", o professor de filosofia Vladimir Safatle tenta atacar o problema de frente. "Este livro gostaria de mostrar como o cinismo deve ser compreendido como categoria maior para a análise das dinâmicas de racionalização em operação nas múltiplas esferas de interação social no capitalismo contemporâneo", explica ele, autor também de "A Paixão do Negativo: Lacan e a Dialética" (Unesp, 2006) e "Lacan" (Publifolha, 2007).

Lido assim, de primeira, parece difícil,como, aliás, boa parte do pensamento filosófico escrito. E, de fato, não é nem um pouco fácil. Trata-se de uma leitura árdua, com a qual não estamos mais acostumados (se é que estivemos um dia). A proposta, no entanto, é bastante interessante. Para chegar ao centro dela, será necessário um certo conhecimento dos filósofos, artistas, escritores e psicanalistas que Safatle espalha por meio de numerosas citações no correr do texto e nos pés das páginas: de Brecht a Lacan, passando por Diderot e Freud, e mesmo Jeff Koons e Cicciolina.

Com a ajuda deles, Safatle vai tecendo sua teia com a intenção de mostrar como o cinismo, de alguma forma, domina o mundo em que vivemos, sendo mesmo a matéria-prima da organização da sociedade hoje. E que as coisas são assim. É como se vivêssemos num bloco de pensamento único, no qual a anestesia seria a única forma de não perecer. "A todo momento, o pensamento encontra-se diante da pressão de questões como: 'que' fazer?'." O próprio autor, na dedicatória que escreve à filha, revela seu pessimismo: "A Valentina, que um dia talvez leia este livro e compreenda por que, como ela mesmo diz, seu pai ri tão pouco."

E onde entraria a "critica" do título? Para Safatle, no regime em que vivemos, "de racionalidade cínica, não é mais possível pensar a critica como indicação de déficits de adequação entre situações sociais concretas e ideais normativos".

São seis artigos divididos entre dialética, sexualidade, estética e política, retomando conceitos clássicos do pensamento ocidental Vladimir Safatle não traz a solução para o problema, mas o cutuca com a vara curta da filosofia, que pode parecer obscura numa primeira aproximação. "Cinismo e Falência da Critica" acende algumas luzes para entendermos um pouco de nossa "era da ironização absoluta das condutas", como escreve o autor. Ali onde estão parte das raízes do desconforto contemporâneo.(CV)

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Correio Braziliense
Data: 2008-09-06
Autor: Cleber Eduardo
Comentário Boitempo:
Título: Amargo sorriso
Matéria:
A partir da perspectiva histórica, o filósofo Vladimir Safatle reflete sobre o lugar do cinismo no mundo contemporâneo

Nas mais de 200 páginas de Cinismo e falência da crítica, do filósofo VIadimir Safatle, passamos por Hegel, Foucault, Freud e Lacan, em aparente tour pelas pirâmides do pensamento ocidental, mas sem abandonar um motivo central de todo esse percurso; o capitalismo contemporâneo e as regulações em geral como evidências de uma lógica pautada pelo cinismo. Essa lógica sustenta-se pela indiferença, pela descrença e pela "distância", tendo em vista a ausência de convicção nas ações e nos discursos. Tais regulações carregam sua própria crítica, anulam a crítica de "fora" e colocam o cinismo como instância superior, sem compromissos e responsabilidades.

Cinismo como base das regulações das formas de vida, regulações não mais coercitivas e com vista a um engajamento, mas baseadas no estímulo do prazer e na flexibilidade das identidades. Cinismo como anomalia aceita como padrão em momentos de crises de normatizações, de indeterminação, de convivência entre discursos e práticas em oposição (sem cair na histeria freudiana, mas em um processo de "interversão", no mesmo solo). O quadro em que isso se dá, seguindo Safatle, é da ironização absoluta de condutas e valores. O cinismo é a desafecção em situações nas quais se espera indignação. É o conceito de "indigno", nesse panorama, que é colocado abaixo. A dignidade, para o cínico, não é questão.

Safatle desenvolve uma perspectiva histórica do cinismo, desde os cínicos gregos, que negavam a polis e desejavam a physis, procurando em uma instância perdida, não retornável (o homem natureza), um contraponto aos padrões de conduta (a cultura, a sociedade). Uma negação resignada, sem projeto, condicionada pelas estruturas criticadas, liberta de vinculos e de paixões, de compromissos e valores. Não seria cínico o crítico impotente e cético, para quem a impotência e o ceticismo são condições, não efeitos somente, porque essa falta de crença e projeto lhe dá liberdade, se não para a atuação crítica, certamente para agir sem inibições e referências limitadoras da ação. No cinismo, pode-se tudo, sem culpas. O que está em jogo, afinal, não é a responsabilidade?

Essa seria a lógica de uma época considerada pós-ideológica, em que, em vez de o sistema justificar-se ou esconder seus efeitos nocivos, assumeos ironicamente e esvazia a crítica "de forá', produzindo, assim, uma ideologia da transparência e não do mascaramento. Uma ideologia reflexiva, um enunciado que se anula, sem com isso ser abalado, justamente porque o paradoxo, em vez de colocar o sistema em crise, acaba por ser a base de sua manutenção. Idéias adaptam-se a realidades sociais contrárias a seus ideais. A ausência de legitimidade torna-se o núcleo da forma de nosso tempo. Um novo processo de conservação, não mais a partir de conflitos entre posições, mas sustentado pela mobilidade dessas posições, pela convivência entre contrários aparentes.

Mantendo-nos na trajetória de Safatle, essa contemporaneidade vive um deslocamento do Super Eu, que era mobilizador da culpa pelo gozo em Freud e se transformou em estímulo ao gozo em Lacan, mas agora um gozo sem culpa, sem vinculos, sem compromissos, um gozo as vezes soterrado pela necessidade da escolha pelo prazer. Não há mais a ética calvinista do acúmulo (imagem do banco) e da rejeição ao gozo, ou do gozo no próprio trabalho (imagem do escritório), mas sim uma cultura do consumo vinculada a essa noção de gozo (o shopping), de descartabilidade, de quantidade associada a uma insatisfação permanente, que resulta em busca também permanente por novas insatisfações. O consumista é um Don Juan. O gozo não se prolonga, ele se multiplica.

Mas não haveria uma regulação do gozo, como pensava Foucault, no sentido de padronização? Não para Lacan e Safatle. Não apenas o bonito e o saudável é chamado à festa hedonista, mas também o feio e o doente, porque tomar remédios é quase motivo de orgulho. Qualquer identidade, seja a do atleta ou a do depressivo, e talvez mais ainda a do atleta deprimido, têm lugar nessa festa. Porque nenhuma identidade atende à sede do gozo supremo, assim co mo ninguém crê nessa utopia. É preciso manter-se em movimento de troca. Dentro dessa dinâmica "bipolar", uma mesma marca, em anúncios em uma mesma revista, pode ter dois discursos distintos, porque o próprio público não é único. O público "são" vários e em mutação. O máximo de segmentação, na verdade, pressupõe o máximo de mobilidade. Não existem vários públicos fixos e em confronto. Existe um grande público em constante transformação e troca de lugares.

Safatle relativiza a potência rebelde do riso segundo Bakhtin, lembrando que, se o carnaval propõe a inversão da norma, ao seu final a norma se recoloca, sem conflitos, com aceitação generalizada. O carnaval é, portanto, a hora do recreio, assim como todo tipo de "riso crítico", não mais que zona de escape, sem efeitos transformadores, porque está incorporado. O próprio Estado financia obras críticas a suas incompetências, assim como as empresas patrocinam narrativas críticas ernrelação ao capitalismo. Nada há mais a esconder. A opacidade está na transparência, a alienação na revelação. Não se trata de engano, mas de aceitáção, mas com os sinais invertidos.

Não há cinismo sem ironia, a linguagem do cínico. A ironia pressupõe entendimento do deslocamento do signo em relação a sua significação. O dizer não está para onde ele aponta. Para o irônico, a realidade é insatisfação, gerando inadequação da experiência e uma atitude de desaprovação sem indignação, com ar de superioridade e potência na indiferença. O cínico não é o hipócrita e não age de má-fé, pois, para isso, teria de mascarar a particularidade de seus interesses, apelando para a universalidade do dever como estratégia. O cínico assume-se como tal, ri do mundo e de sua condição no mundo, como um Mabuse impotente, sem Viagra. É uma atitude política de reação a esse estado de coisas, portanto, que inspira Safatle a afirmar, na dedicatória do livro a sua filha Valentina, que um dia ela compreenderá, depois de ler Cinismo e falência da crítica, por que seu pai ri tão pouco.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: O Estado de S. Paulo
Data: 2008-09-14
Autor: Maria Rita Kehl
Comentário Boitempo:
Título: Passo em falso da consciência
Matéria:
Em Cinismo e falência da crítica, Vladimir Safatle discute alienação e desejo numa nova ordem social
A crítica do cinismo como forma predominante da subjetividade contemporânea é conhecida dos leitores de Peter Sloterdijk. Mas me parece que a leitura de Crítica da Razão Cínica pode nos levar a entender que o sujeito da "falsa consciência esclarecida" seria imune à alienação. Como se amodernidade capitalista, em sua fase avançada, tivesse aperfeiçoado de tal maneira os dispositivos de engajamento subjetivo em relação à nova ordem social a ponto de dispensar a alienação. Diante de dificuldades teóricas desta ordem, o filósofo e professor da USP Vladimir Safatle acaba de empreender mais um esforço, mais uma volta no parafuso do pensamento crítico que, de Regel a Kant, passando por Adorno e seus companheiros da Escola de Frankfurt, dedicou-se a compreender as transformações sofridas pela consciência cínica, desde a antiguidade clássica (Diógenes) até as variantes do cinismo moderno.

Ninguém melhor do que Safale, no Brasil, para levar a cabo a tarefa. Em Cinismo e falência da crítica, o autor de A paixão do negativo (Unesp) e Lacan (Publifolha), entre outros, dá sequência a seu projeto "freudiano-marxista" - portanto, radicalmente materialista - de abordagem dialética da modernidade. O estudo sobre as transformações do cinismo moderno, desde Diderot (O Sobrinho de Rameau) até nossos dias, procura desvendar com o auxílio de pensadores atuais como Slavoj Zizek, Giorgio Agamben e Paulo Arantes, as grandes linhas de força que atam o sujeito contemporâneo à nova ordem capitalista a partir do que lhe é mais indomável e íntimo (ou extimo, como leria Lacan num de seus terríveis neologismos): seu próprio gozo. Os seis ensaios independentes do livro abordam, a partir de objetos diferentes duas questões fundamentais: 1. em que consiste a alienação e 2. qual a função da crítica em uma sociedade que já não acredita em seus pressupostos normativos.

O autor parte da observação de que o capitalismo, em sua fase consumista (a partir dos anos 1960-70) passou a contar com novos dispositivos que realizam o controle social através de seu oposto aparente: a multiplicidade de modos de vida e a flexibilidade da personalidade. A eficiência dessa modalidade "fluida" do poder disciplinar coloca em questão o que Adorno percebeu como a solidariedade necessária entre identidade e ideologia. A ilusão oitocentista do homem "idêntico a si mesmo" (e às suas idéias) foi dispensada no mundo em que a primeira condição de inclusão no laço social é a permanente disponibilidade dos sujeitos para todas as novidades do mercado. O novo sujeito da sociedade de consumo é explicitamente convocado a relacionar-se com a Lei de acordo com sua conveniência. Para Safatle, o cínico atualizado tem mais afinidades com o perverso freudiano, que se autoriza tomar a Lei do Pai na versão que lhe convém, do que com os grandes mestres da ironia dos séculos 18 e 19. A razão cínica, como (falsa) consciência esclarecida, é capaz de denunciar o caráter ilusório, de crença, dos pressupostos que sustentam a ordem, de modo a autorizar o sujeito a ocupar um lugar de exceção diante da Lei.

Mas seria a consciência cínica transparente também para si mesma? A denúncia das crenças que sustentam a ordem social seria sufIciente para fazer do cínico um sujeito imune às formações do inconsciente? O autor cita Zizek, para quem a opacidade ideológica que permite a alienação, até mesmo da falsa consciência esclarecida, não passa pela crença (ou pelo saber), mas pela repetição de fazeres automatizados, que Althusser chamou de "rituais materiais". Ora, automatismos de repetição indicam a persistência das manifestações do desejo inconsciente. É o que Safatle afirma logo adiante: o engajamento dos sujeitos na ordem contemporânea não se dá pela via da razão, mas do desejo inconsciente. Cai por terra, dessa forma, a pretensão de transparência total da consciência cínica.

O primeiro ensaio da segunda parte do livro, Por uma crítica da economia libidinal, serve-se de Freud e Lacan para investigar em que ponto a consciência cínica falseia. A velha culpa do eu diante dos imperativos morais do supereu teria sido abolida em uma sociedade regida pelo imperativo do gozo? É evidente que não, uma vez que a obrigação de gozar é o mais cruel e exigente mandato do supereu.

Sob a fragilidade da Lei explícita já estaria em vigor outra Lei, perpetuando frente a outro Mestre a servidão, que nunca foi tão docemente voluntária, dos ditos "consumidores" do terceiro milênio. O capitalismo atual não manteria ainda falsas interdições apenas a fim de nos seduzir com o permanente convite à transgressão que sustenta a nova ordem consumista?

A leitura de Cinismo e falênda da critica esclarece que, ao não crer em nada, o cínico ainda crê na possibilidade de realizar a versão mais infantil da lei: a lei do gozo. A "ética do direito ao gozo" com que Sade inaugurou a modernidade seria a forma mais infantil de obediência a que o cínico está submetido, identificando-se não a um valor, mas a uma atitude. Paradoxalmente, neste ponto a artimanha do cinismo vem a claudicar: o cínico não está imune ao fatalismo melancólico descrito por Walter Benjamin, desencantado coma "realidade sem substância" que ele próprio trabalha docilmente para produzir.

Maria Rita Kehl,
psicanalista, é autora de Sobre ética e psicanálise e Ressentimento, entre outros

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Trópico
Data: 2008-09-23
Autor: Humberto Pereira da Silva
Comentário Boitempo:
Título: A insatisfação administrada
Matéria:
Em novo livro, o professor de filosofia Vladimir Safatle discute como o cinismo é um antídoto à falência da crítica

Quando alguém é acusado de cinismo, parece razoável supor na sociedade em que vivemos que tal acusação não seja bem vista. Fazemos um uso extensivo desse termo para caracterizar certas distorções em relação a expectativas normativas. Vale dizer: supomos que cínico é aquele que quebra padrões de conduta socialmente esperados. O cínico se colocaria então fora dos condicionantes que regem as expectativas de conduta.

Mas o termo "cinismo" tem longa história no pensamento e pode ser compreendido como categoria adequada para expor a normatividade interna da forma de vida hegemônica no capitalismo contemporâneo, que traz em seu bojo a falência de certa forma de crítica.

Viver sob regime de racionalidade cínica implica não mais ser possível pensar a crítica como indicação de déficits de adequação entre situações sociais concretas e ideais normativos. Esta a idéia básica que anima os ensaios do novo livro de Vladimir Safatle, “Cinismo e Falência da Crítica” (Boitempo Editorial, 212 págs.).

Professor de filosofia na USP, Safatle tem se dedicado nos últimos anos a estudos com foco na peculiaridade de certo modo de transparência e esclarecimento hegemônico em nossas sociedades “pós-ideológicas”. Daí reconhecer o esgotamento do potencial analítico de categorias como reificação, alienação, e optar por focar sua análise das sociedades “pós-ideológicas” numa categoria como a do cinismo.

Na entrevista a seguir, Safatle esclarece pontos cruciais do livro. Procura mostrar em que sentido se deve entender o cinismo na modernidade: “O cinismo é uma espécie de distorção performativa capaz de torcer, de inverter, os valores ao aplicá-los”.

Explora, para o caso da ação do Exército brasileiro nos morros do Rio de Janeiro, a idéia de estado de exceção, como proposta pelo filósofo italiano Giorgio Agamben, e aborda o que chama de "insatisfação administrada na sociedade de consumo.

"A verdadeira questão consiste em saber como a indústria cultural e a retórica de consumo administram a insatisfação com os próprios padrões por elas veiculadas. Ou seja, elas produzem, ao mesmo tempo, o padrão e sua transgressão, o princípio e sua crítica. Nada dá mais dinheiro à indústria cultural do que a crítica, produzida pela própria indústria cultural, aos estereótipos da indústria cultural”, afirma Safatle.

“Cinismo e Falência da Crítica” parte de um termo ("cinismo") que tem no grego Diógenes Laércio sua referência mais destacável. Mas Diógenes e os cínicos, ao longo da história da filosofia, foram relegados para segundo plano. O que melhor caracteriza o pensamento cínico no mundo grego? E, por que o cinismo e os cínicos foram colocados à margem pela tradição filosófica?

Vladimir Safatle: O cinismo de Diógenes, Antístenes, Crates, Menipo e outros era uma filosofia eudemonista, baseada na crítica radical ao convencionalismo da moral que guiava o "nomos" e a cultura, isto através da tentativa de recuperação de uma moral naturalista que fundamentaria a autenticidade do agir.

Por outro lado, esta crítica cínica visava fundar a virtude na simplicidade dos costumes, na limitação das necessidades e, principalmente, na apatia em relação aos objetos sensíveis. Do ponto de vista daquilo que chamaríamos hoje de “teoria do conhecimento”, o cinismo baseava-se na crítica dos universais através de uma teoria naturalista da linguagem. Talvez o dito cínico mais conhecido a este respeito seja a crítica à idéia platônica através da afirmação: “Eu vejo um cavalo, mas não vejo a cavalidade”.

Durante o Império Romano, o cinismo chegou a ser algo como uma filosofia popular bastante difundida e continuou a ter uma influência subterrânea na Idade Média. Mas foi com o Iluminismo que o interesse pelo cinismo renovou-se, isto a ponto de Diógenes transformar-se em um personagem presente na iconografia da Revolução Francesa. O que demonstra que talvez não seja totalmente correto dizer que o cinismo foi relegado a um segundo plano pela tradição filosófica. Ele serviu para a constituição do horizonte da noção de crítica no Iluminismo.

Justamente. É na Ilustração que se propõe uma releitura dos cínicos. O cinismo passa a ser compreendido como categoria maior para a análise das dinâmicas de racionalização em operação nas múltiplas esferas de interação social no capitalismo contemporâneo. Por que em seu entendimento trata-se de um termo adequado para um diagnóstico da modernidade?

Safatle: Há uma história intrincada de transformação da crítica cínica ao convencionalismo da moral (sentido do cinismo grego) em dispositivo de conservação de valores que estão reconhecidamente em crise (sentido do cinismo contemporâneo).

Tentei descrever este processo através do comentário de um texto fundamental para entender esta passagem, “O Sobrinho de Rameau”, de Diderot, juntamente com a interpretação feita por Hegel, na “Fenomenologia do Espírito”. Uma leitura detalhada desse texto central para a constituição da crítica no Iluminismo nos permite ter uma compreensão mais precisa do que vem a ser atualmente “cinismo”. Neste ponto, não faço mais que caminhar em um caminho aberto por Rubens Rodrigues Torres Filho e Paulo Arantes.

Este esclarecimento conceitual parece-me importante, porque o termo é usado de maneira bastante livre na linguagem cotidiana. No entanto, ele descreve uma operação precisa. Creio que podemos dizer: cínico é todo enunciado que faz com que valores, princípios e critérios normativos intersubjetivamente partilhados consigam, paradoxalmente, justificar situações que lhes seriam contrárias. Neste sentido, o cinismo é uma espécie de distorção performativa capaz de torcer, de inverter os valores ao aplicá-los. A análise desta inversão, diga-se de passagem, é um fenômeno maior no interior daquilo que poderíamos chamar de auto-crítica da modernidade.

A respeito da modernidade, aliás, você observa, em referência ao filósofo Peter Sloterdjik (“Crítica da Razão Cínica”), que, se há uma razão cínica, é porque o cinismo vê a si mesmo como figura da racionalidade: para ele, não é apenas racional ser cínico, só é possível ser racional sendo cínico. Da esfera de nossas experiências cotidianas, onde você entende ser palpável notar a chamada “razão cínica”? Safatle: “Razão cínica” é, de fato, um termo interessante. Ele quer dizer que há um modo cínico de fundamento de padrões de racionalidade. Quando falamos em “racionalidade”, tendemos quase que imediatamente a pensar em processos de normatização. Racionalidade como normatividade.

Assim, uma situação é racional quando ela pode ser justificada e expressa a partir de uma norma aceita intersubjetivamente sem coerção. Acreditamos estar seguros quando somos capazes de definir claramente e formalmente princípios normativos racionais, pois imaginamos que uma norma racional tem a força de determinar os casos que são conforme a norma e separá-los dos casos que não o são.

Neste sentido, o cinismo é um fenômeno interessante por mostrar que este esquema é falho em larga medida. Estamos em um momento histórico no qual cada vez mais parece não ser possível operar tais separações. Ou seja, a aplicação da norma, longe de estabelecer um campo seguro de determinações, tende a generalizar situações de indeterminação e anomia.

No livro, tentei mostrar como esta mutação no padrão de racionalidade pode ser encontrado nos três campos que constituem aquilo que podemos chamar de “forma de vida”, ou seja, os campos do desejo, do trabalho e da linguagem. Por isto, o livro tem ensaios sobre mutações no processo de constituição de sexualidades, sobre modificações na ética do trabalho e sobre a desagregação da linguagem no campo da arte contemporânea.

Um dos móbiles mais usados pela crítica esclarecida foi o riso como modo de desmascaramento das imposturas do poder. Para você isso já está presente nos cínicos, que radicalizaram a ironia socrática. Que aproximações e afastamentos se podem fazer entre ironia e cinismo? Por outro lado, por que em Adorno as múltiplas figuras da ironia não são armas de esclarecimento?

Safatle: De fato, logo na introdução procuro fazer uma distinção no interior daquilo que poderíamos chamar de “atos de fala de duplo nível”, ou seja, atos de fala onde há distinções estruturais entre os níveis do enunciado e da enunciação. Para a discussão que procuro desenvolver, há quatro tipos principais destes atos de fala: a hipocrisia, a má-fé, a ironia e o cinismo.

Os dois primeiros são fundados em alguma operação de mascaramento. Sou hipócrita, por exemplo, se mascaro meus sistemas de interesses ao usar uma proposição que aspira ter validade geral como máscara. Ajo de má-fé quando mascaro meus interesses para mim mesmo, como diria Sartre. Veja, nos dois casos há algo em comum: a distinção entre os níveis do enunciado e da enunciação não deve ser visível. No entanto, ironia e cinismo não funcionam através do mascaramento das diferenças entre enunciado e enunciação. Na ironia, por exemplo, é fundamental que o Outro perceba que a posição do enunciador não se confunda com a literalidade do enunciado, que há um descompasso entre o que eu falo e o que quero dizer. Senão a ironia se transforma em um simples mal entendido.

Se falo de maneira irônica, é fundamental que o Outro perceba que há uma distinção de nível entre o que quero dizer e o que digo. Por isto, grosso modo, podemos dizer que a ironia é um modo de erodir a crença no enunciado, já que o sujeito irônico procura mostrar que tal enunciado não pode ser tomado a sério. Não é por outra razão que procurei mostrar, no livro, como conhecemos atualmente vários projetos que procuram servir-se da paródia como paradigma de constituição da crítica política.

Deleuze, Judith Butler, Giorgio Agamben: todos eles acreditam, cada um a sua maneira, que a paródia teria um forte potencial político, da mesma forma que haveria um forte potencial político quando imito as injunções do poder de forma tal que mostro não levar a imitação à sério, deslocar a imitação de seu "lugar natural" a fim de desativar a sua força.

No livro, tentei mostrar os limites desta forma de crítica que acredita no potencial emancipador da paródia e da ironia, forma muito difundida na atualidade. Tais limites são visíveis principalmente graças a uma idéia, derivada de Adorno, que consiste em dizer que a ideologia do capitalismo é irônica.

Atualmente, a ideologia já parte do pressuposto de que aquele que se submeterá aos padrões de conformação ideológicos não acreditará completamente neles. Daí porque Adorno tem uma teoria extremamente elaborada da ideologia que não faz apelo a noções clássicas como falsa consciência e reificação. Neste contexto, ele adianta operações fundamentais para a elaboração da idéia de “racionalidade cínica” que se demonstra, no fundo, como uma espécie de ironização absoluta das condutas pressupostas pelo próprio poder.

Você aborda no livro o fenômeno da “usura da verdade”. A esse respeito, lembra de uma anedota judia contada por Freud: um sujeito diz para outro para onde está indo e ouve que está mentido, pois ele quer fazer o outro crer que não vai para onde diz que vai. No plano do discurso, como separar sinceridade da "in-sinceridade"?

Safatle: Uma das idéias que julgo importante para compreender o cinismo consiste em livrar-se da noção de sinceridade como estado intencional. A sinceridade não é um estado intencional do sujeito que fala, mas um modo de repetição de disposições de conduta. Trata-se de uma questão de se comportar de uma certa maneira. Isto pode parecer contra-intuitivo, mas tentei mostrar no livro como posições desta natureza são defensáveis.

É por uma razão parecida que Pascal podia responder ao ateu que perguntava ao crente o que fazer para acreditar em Deus: “Ajoelhai e repita as condutas do crente, a fé virá de acréscimo”. Isto modifica radicalmente a noção de falsa consciência, porque não se trata mais de um problema de representações incorretas da realidade, mas de disposições para a ação.

Na retórica política, por exemplo, onde você acredita haver enunciados de verdade que produzam efeito de mentira? A promessa política muitas vezes não é uma forma de fazer o eleitor não acreditar no que de fato se quer fazer?

Safatle: Se você pensa na retórica partidária (já que eu deixaria a retórica política para outros atores que não os partidos), creio que o que se faz são promessas de gestão, e não promessas políticas. Uma verdadeira promessa política é algo que talvez não seja mais possível ouvir no interior da democracia parlamentar.

No Brasil, hoje temos discussões sobre a presença do exército nos morros no Rio de Janeiro, sobre vigilância telefônica da parte da Polícia Federal, sobre a submissão de quem dirige à chamada “Lei seca”. Giorgio Agamben ao tratar do estado de exceção, aquele em que o ordenamento jurídico legaliza sua própria suspensão. Os exemplos dados são adequados para se falar sobre estado de exceção no Brasil?

Safatle: O problema do estado de exceção aparece neste contexto para discutir uma forma jurídica onde a norma consegue justificar situações que colocam em suspenso a própria vigência da norma. No entanto, não creio que o amálgama que você sugere funcione bem. Uma situação de exceção é aquela na qual não posso mais dizer se a normatividade jurídica está ou não em vigor porque há uma espécie de “suspensão legal da Lei”.

Por sinal, o cinismo só se transforma em processo social hegemônico quando estes fenômenos de suspensão legal da Lei tornam-se a situação normal. Temos vários casos deste tipo de situação no Brasil, mas, dos três exemplos citados, dois não são exatamente bons: o caso da lei contra dirigir alcoolizado (que é uma lei trivial de regulação de práticas de trânsito) e a questão das escutas telefônicas feitas pela Polícia Federal (que só virou questão nacional por ter sido aplicada contra banqueiros responsáveis por organizações criminosas, assim como políticos e jornalistas que estariam envolvidos com tais organizações).

O primeiro exemplo que você traz é mais interessante por se enquadrar em uma tendência mundial de utilizar técnicas e lógicas militares na administração de populações socialmente excluídas. Não se trata apenas de servir-se do exército, mas de utilizar uma lógica militar naquilo que Foucault chama de “gestão das populações”.

A tendência é que tal lógica se generalize e passe a operar em todos os níveis da cidade, fazendo com que o paradigma securitário regule todas as dimensões de nossa vida social. E a lógica de atuação do exército é esta da guerra, ou seja, do estado de exceção, da suspensão legal da Lei para que um princípio soberano afirme-se em toda sua crueza.

Em uma guerra, você aplica a lei em certos casos, em outros não. Tudo depende do bel- prazer da avaliação de quem coordena o dispositivo militar. Mas o problema, como dizia Groucho Marx, é que inteligência militar é uma contradição em termos.

Mas a “Lei seca” não seria exemplo de que não posso dizer se a normatividade jurídica está ou não em vigor? Levemos em conta o princípio: numa blitz policial, o que se discute é se tenho direito de não produzir provas que me incriminem.

Safatle: De fato, não consigo ver muito bem o problema neste exemplo. É algo muito parecido a tirar digitais de alguém para ver se elas são idênticas àquelas que se deixou após um crime. Há uma lei (que por sinal é trivial e sensata) e há alguém que verá se a lei foi infringida. Não deveria haver tanta celeuma a respeito disto e tenho realmente dificuldade de entender por que tanta gente entrou nesta discussão.

No ensaio em que trata do estado de exceção, você assevera que este não responde a uma lógica exclusiva de Estados totalitários, pois é criação da tradição democrático-revolucionária ocidental. Com isso não há o risco de não termos dois pesos e duas medidas quando, justamente, consideramos sociedades fechadas, em que diretos e liberdades individuais são controlados pelo Estado?

Safatle: O que aconteceria se você chegasse à conclusão de que a diferença entre sociedades totalitárias e sociedades democráticas tende gradativamente a se apagar? Esta hipótese, diga-se de passagem, não foi posta por nenhum filósofo radical de esquerda, mas por um típico liberal, Richard Rorty.

Veja o caso da Itália, que está neste exato momento em estado de exceção para permitir ao Estado combater um “crime” inexistente, a imigração, já que se trata de um problema social. Um país que desagregou sua “substância normativa” para dar proteção jurídica a um governo composto, em larga medida, por simples bandidos. Um país que a todo dia edita medidas de restrição às liberdades individuais, que promove festivais de caça a ciganos e cuja mídia não é exatamente sinônimo de isenção.

A pergunta que valeria ser posta é: será possível voltar à “normalidade democrática” depois que tais medidas foram enunciadas no interior mesmo da dita normalidade democrática? Medidas desta natureza não tendem a ficar, criando, com isto, um arcabouço jurídico perene? Quanto tempo resta à Itália para que ela ganhe todos os traços de uma sociedade totalitária?

Eu lembraria que temos, em larga medida, uma visão equivocada do que é uma sociedade totalitária. Adorno compreendeu isto claramente, ao afirmar que o fascismo não era uma sociedade "law and order", mas uma sociedade onde ninguém acreditava na ideologia do Estado, embora, todos acabassem agindo como se acreditassem. Neste sentido, Berlusconi não seria o líder totalitário perfeito? Aquele que não pede que acreditemos nele, mas que simplesmente atuemos como se acreditássemos.

Diga-se, por fim, que o nazismo e o fascismo não podiam ser tecnicamente descritos como governos ditatoriais. Hitler, por exemplo, era o chanceler legitimamente nomeado, a constituição vigente era a constituição “democrática” de Weimar. O que ele fez foi simplesmente usar o artigo 48 da Constituição, que previa a decretação de estado de exceção em situações de emergência, para governar durante 13 anos. Ou seja, tudo foi feito respeitando a legalidade democrática. Não é esta nossa tendência atual?

Deve-se entender, então, que a partir da prática do estado de exceção tende-se a se apagar a distinção entre sociedade aberta e fechada?

Safatle: Diria que a distinção nunca foi boa. De fato, ela era tão ruim que alguém como George Soros pôde se tornar arauto das “sociedades abertas”. Uma “sociedade aberta” pode tornar-se fechada sem deixar de ser “aberta”. O que demonstra como a distinção esconde muito mais do que mostra. Posso fornecer um exemplo do que tenho em mente e que, por sinal, parece-me como paradigmático para discutir o cinismo.

Uma “sociedade aberta” é aquela que eleva a tolerância a princípio normativo fundamental. Mas, “em certas situações especiais” (que podem se generalizar), para defender o princípio de tolerância, eu posso ser levado a ser intolerante com aqueles que são contra o princípio de tolerância. Em defesa da tolerância, eu posso ser levado a expulsar os intolerantes da minha comunidade. Desta forma, posso continuar sendo tolerante na dimensão dos critérios normativos, mesmo sendo intolerante na dimensão da ação.

Por sinal, este foi o caso da extrema-direita holandesa encarnada por Pim Fortuyn, morto dias antes da eleição que o levaria ao poder neste que é o país formalmente mais tolerante do mundo. Sua própria figura era um exemplo maior do que procuramos apreender. Tratava-se de um populista de direita, cuja grande parte das características pessoais e opiniões eram “abertas”: homossexual assumido, tinha boas relações com imigrantes, um senso inato para a ironia etc.

No entanto, o núcleo do seu discurso era: “Os Países Baixos alcançaram um alto grau de tolerância e liberdade. Não podemos perder tudo isto deixando que árabes intolerantes venham para cá. Em nome da tolerância, devemos então ser intolerantes contra os intolerantes. Nós já fomos muito tolerantes com a intolerância”.

Como você sabe, este tipo de argumento é hoje cada vez mais hegemônico e serve tanto para impor um paradigma securitário na gestão social quanto me livrar de precisar perguntar como minha tolerância foi vista pelo outro. Poderia parafrasear Merleau-Ponty em um belo texto sobre Maquiavel: “Que tipo de política é esta que 'entifica' princípios formais e nunca se pergunta sobre como o outro (e aqui haveria uma discussão interessante sobre até que ponto aceito que exista um outro que descentra minha perspectiva de avaliação) irá compreender meus valores 'universais, abertos e esclarecidos'?”.

A conhecida tese de Max Weber sustenta que a ética capitalista se funda na acumulação de capital, na mesma medida em que se afasta do gozo espontâneo da vida. Você nota, no entanto, que estudos sobre o “novo capitalismo” mostram um movimento pela procura do gozo, disponibilizado através da forma-mercadoria. No capitalismo que se instalou na China ou em países europeus, após a derrocada soviética, se está a levar em conta esse movimento pela procura do gozo?

Safatle: No meu caso, esta discussão é muito marcada por estudos sobre o “novo espírito do capitalismo”, como os desenvolvidos por Luc Boltanski e Eve Chiapello, assim como por um certo enquadramento sócio-histórico de certas teorias psicanalíticas sobre socialização. Grosso modo, a idéia é que a antecâmara da ética protestante do trabalho ascético weberiano, com sua exigência de afastamento do gozo dos bens que acumulo, foi fornecida por Freud e sua teoria do supereu repressor que marca toda exigência de gozo com o selo da culpabilização.

No entanto, como este modo de trabalho modificou-se, como a vocação identitária e restritiva a funções específicas deu lugar à flexibilização, à maleabilidade, ao risco (suma aventura da nossa época) e à capacidade de romper regras (herança das utopias de 68 que o mundo do trabalho soube absorver), então deveríamos nos perguntar sobre qual é o modo de constituição de instâncias psíquicas de regulação da conduta mais adequado às novas exigências do mundo do trabalho. E neste ponto, creio que a teoria lacaniana do “supereu não-repressor” tem muito a nos dizer. Pois ele nos abre portas para discutir modos de dispositivos disciplinares não mais dependentes de dinâmicas repressivas.

Diga-se de passagem, esta nova configuração do ideal do trabalho não implica que todos os trabalhos na nossa sociedade tendam a ganhar esta forma. Significa apenas que vivemos em uma sociedade do trabalho sem ética do trabalho ou, ao menos, sem esta figura tradicional da ética do trabalho como horizonte regulador.

Uma sociedade que repete uma injunção do tipo: se você subir, você alcançará uma dimensão do emprego onde trabalho e gozo não se distinguem. Isto serve para explicar as representações imaginárias que ainda sustentam uma certa adesão de vários estratos a um mundo do trabalho cada vez mais desregulado.

Mas ela não serve para descrever a realidade "empírica" do mundo do trabalho. Por isto, eu diria que nossa tendência é ser trabalhadores chineses na prática, enquanto no imaginário somos executivos flexíveis, vivendo em fluxos aleatórios de multiplicidades e acontecimentos. Mas a questão interessante seria tentar compreender como este imaginário se sustenta.

Na sociedade de consumo em ritmo acelerado passa-se da idéia de uma sociedade da satisfação administrada para uma sociedade de insatisfação igualmente administrada. Como pensar em padrões de conduta e de identidade numa sociedade em que tão logo o consumidor saia do centro de compras seu objeto de consumo perde o feitiço que o moveu à compra?

Safatle: A idéia de uma sociedade da insatisfação administrada baseia-se na noção de que o dispositivo fundamental do poder em situações de crise “estabilizada” de legitimidade não consiste em administrar os modos de satisfação, mas gerir os modos de insatisfação.

Não se trata mais de conformar as exigências individuais de satisfação a clichês e padrões gerais estereotipados.

A crítica da estereotipia não funciona mais diante das estratégias contemporâneas da indústria cultural. Pois a verdadeira questão consiste em saber como a indústria cultural e a retórica de consumo administram a insatisfação com os próprios padrões por elas veiculadas.

Ou seja, elas produzem, ao mesmo tempo, o padrão e sua transgressão, o princípio e sua crítica. Por isto, seus conteúdos vêm previamente ironizados, previamente criticados, como contos de fadas onde os personagens tradicionais já demonstram a todo momento estarem cansados de suas próprias falas. Nada dá mais dinheiro à indústria cultural do que a crítica, produzida pela própria indústria cultural, aos estereótipos da indústria cultural.

Creio que isto apenas demonstra como o verdadeiro poder é aquele capaz de controlar suas margens, e não aquele que impõe padrões estritos de conformação. Ou seja, em uma sociedade da insatisfação administrada, o poder já fornece seu próprio padrão de crítica, ele já ri de si mesmo, ele já ironiza a si próprio. Este tipo de dominação é o que há de mais desesperador.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Folha de SP
Data: 2008-10-05
Autor: Evando Nascimento
Comentário Boitempo:
Título: Bricolagem filosófica
Matéria:
"Cinismo e Falência da Crítica" mescla várias disciplinas para defender que o planeta vive hoje num estado de exceção

Lê-se com interesse o livro "Cinismo e Falência da Crítica", do professor de filosofia da USP Vladimir Safatle. Vale assinalar que o próprio autor reconhece na introdução possíveis lacunas. Ressalta o fato de o estudo mesclar linguagens de várias disciplinas: filosofia, sociologia, economia política, literatura, lingüística pragmática, mídia, moda, estética, música e psicanálise.

Dentro da autonomeada "bricolagem intelectual" freudo-marxista, são convocados, num grande amálgama, entre outros, Hegel, Lacan, Marx, Freud, Adorno, Habermas, Austin, Althusser, Deleuze, Bakhtin, Foucault, Lyotard, Sloterdijk, Zizek, Butler, Agamben...

Cabe indagar o que Foucault e Deleuze estão fazendo num texto que retrocede a uma filosofia da consciência hegeliana, aliada a uma teoria psicanalítica lacaniana, sem que a problemática do inconsciente seja adequadamente desenvolvida, o que por si só traria inúmeros problemas de lógica argumentativa; e sem que tampouco se refira ao falocentrismo bastante criticado de Lacan, com o apego à "função paterna".

Difícil é imaginar que a microfísica do poder foucaultiana possa se coadunar com a visão totalizante e unitária do poder como centro de Safatle, por meio de recurso ao rótulo impreciso de origem norte-americana, praticamente inexistente na França e em outros países europeus, de "pós-estruturalismo".

Crise de legitimação
Do mesmo modo, num único capítulo três teóricos de peso são julgados sumariamente a propósito da paródia, do simulacro e da transgressão, relacionados ao "cinismo" e à "plasticidade" identitária contemporânea: Gilles Deleuze, Giorgio Agamben e Judith Butler.

A tese principal é a de que o mundo atual estaria mergulhado numa profunda anomia, em que vigora cada vez mais o estado de exceção, sustentado pelo "cinismo" generalizado, o imperativo do "gozo" e a conseqüente falência da crítica. A impressão que se tem com esse tipo de raciocínio é que teria havido na história do globo um período de total e pleno direito, após o qual ocorreria o advento de sociedades anômicas, em que predomina a crise de legitimação.

Importa saber se o "cinismo" -de resto, muito mal explicado em sua vinculação com a Grécia Antiga, tratando-se superficialmente a história complexa do termo e sua mudança de sentido- é o melhor instrumento para analisar a contemporaneidade, pois isso também levaria a crer que as relações sociais possam sempre ocorrer, de modo exclusivo e sem falha, por meio da seriedade e da transparência, como seria idealmente desejável.

Ideologia
Em vez de um processo degenerativo geral, caberia pensar no que hoje, em razão dos mecanismos disseminados de poder, impede a compreensão de si e do outro, numa convivência pautada por valores solidários, dentro da melhor tradição democrática, mas sem utopias. Outro problema conceitual relevante é o recurso freqüente no livro ao termo ideologia, apenas definido por vias negativas, afirmando que não se trata mais da concepção marxista como falsa consciência nem como fator de reificação. Vigora assim uma noção consensual e naturalizada ("ideológica", no sentido marxista original) de ideologia.

Essa negatividade dialética, que é mais negativa do que dialética, pois opta claramente por um dos pólos da oposição, sem chegar à síntese, propõe uma "ascese crítica", presa aos dogmas que julga atacar. O ecletismo filosófico do livro copia o suposto "ecletismo cínico", numa autêntica performance ironista, a contrapelo da vontade do autor.

O final do ensaio é patético, com o investimento amargo na lógica do pior, recusando-se a propor soluções, porque "o verdadeiro desespero conceitual produz uma ação que satisfaz à urgência. Se ainda não há ação que satisfaça a urgência, é porque não fomos suficientemente longe com nosso desespero".

EVANDO NASCIMENTO leciona na Universidade Federal de Juiz de Fora (MG) e é autor de "Retrato Desnatural" (Record), entre outros.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Mais!
Data: 2008-10-12
Autor: Vladimir Safatle
Comentário Boitempo:
Título: Conceito e ruptura
Matéria: No Mais! de 5/10, o professor de teoria literária Evando Nascimento escreveu que meu último livro ["Cinismo e Falência da Crítica", ed. Boitempo] não passava, no fundo, de um amargo arremedo negativista marcado pelo ecletismo e pela imprecisão conceitual. Tais opiniões pessoais não me incomodariam se não estivessem baseadas em equívocos grosseiros de leitura a respeito do que escrevi.

Vi-me acusado de dizer o que não disse e de não dizer o que disse. Primeiro, algumas considerações sobre a acusação de "ecletismo".

Em um artifício retórico não muito recomendável, o resenhista apresenta uma espécie de índice onomástico do meu livro e diz que os autores ali citados "são convocados num grande amálgama".

Quem diz amálgama, diz continuidade, fusão. Ou seja, a acusação é de que eu teria dito existir alguma espécie bizarra de unidade fusional entre Hegel, Austin, Lyotard, Bakhtin, Lacan, Habermas, Deleuze e Calvin Klein.

Francamente, nunca defendi absurdo parecido, a não ser que o resenhista confunda sistematicamente continuidade com confrontação e debate.

A noção de ideologia

Na verdade, a partir de uma matriz que articula psicanálise lacaniana e tradição dialética (Hegel, Adorno), procurei estabelecer linhas de ruptura entre uma teoria da racionalidade cínica, que poderíamos derivar de tal matriz, e algumas tendências hegemônicas de reflexão sobre processos de racionalização nas sociedades contemporâneas.

Assim, se ele se pergunta sobre "o que Foucault e Deleuze estão fazendo num texto que retrocede a uma filosofia da consciência hegeliana (sic), aliada a uma teoria psicanalítica lacaniana", a resposta é simples: eles estão, em larga medida, sendo criticados em pontos regionais e precisos.

O primeiro, devido a aspectos de sua crítica à dita "hipótese repressiva". O segundo, devido a certas conseqüências de sua articulação entre capitalismo e esquizofrenia, assim como de sua teoria da sexualidade derivada do masoquismo.

Se afirmei, por exemplo, que certos pontos da teoria hegeliana da modernidade reaparecem, com sinais invertidos, como teoria do capitalismo avançado no pós-estruturalismo de Deleuze/Guattari e Lyotard, trata-se simplesmente de uma estratégia de crítica a tal inversão.

Diga-se de passagem, é no mínimo peculiar que o resenhista chame "pós-estruturalismo" de "rótulo impreciso", enquanto ele mesmo se auto-define como especialista em... "pós-estruturalismo francês".

No mesmo ímpeto, me pede uma definição clara de ideologia quando há todo um capítulo dedicado exatamente à exposição da especificidade do conceito adorniano de ideologia e à necessidade de recuperá-lo.

Wikipédia?
Procuro mostrar como uma noção contemporânea de ideologia que não faz mais apelo a conceitos como "falsa consciência" e "reificação" pode fundamentar-se a partir da análise de disposições de conduta marcadas por aquilo que Adorno chama de "sintomas de consciência duplicada".

Pode-se não concordar com tal estratégia, mas dizer que ela esconde uma imprecisão conceitual só faz sentido se o leitor estiver acostumado apenas com definições de Wikipédia.

Por fim, há uma fração da intelectualidade nacional que acredita fazer análise quando repete adjetivos como "niilismo", "negativismo", "lógica do pior", "fracassomania" contra aqueles que desconfiam da força reguladora de chamados edificantes à "convivência mútua pautada por valores solidários".

Não creio que isso deva ser levado a sério pois, parafraseando [o filósofo] Bento Prado Jr., "sempre se é o niilista de alguém". Ou seja, niilista é sempre o outro, aquele que preciso desqualificar para elevar o fundamento de minha perspectiva de avaliação à condição de princípio inquestionável. Como se trata de desqualificação, já se saiu há muito da dimensão da análise para se entrar na lama da injúria.

VLADIMIR SAFATLE leciona filosofia na USP.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Folha de S. Paulo
Data: 2008-10-19
Autor:
Comentário Boitempo:
Título: Com textos de Evando Nascimento e Vladimir Safatle, a Folha encerra polêmica
Matéria:
Questão conceitual
EVANDO NASCIMENTO
ESPECIAL PARA A FOLHA

Considero sempre temerário que se transforme o debate intelectual em vitimização. Em nenhum momento desqualifiquei "Cinismo e Falência da Crítica" (editora Boitempo, 216 págs., R$ 36), de Vladimir Safatle [no Mais! de 5/10].

Ao contrário, atendendo ao convite do caderno, começava a resenha afirmando expressamente o interesse em lê-lo. Deixo, portanto, ao eventual leitor comparar minhas reflexões ao conteúdo do livro.

Dada a insuficiência argumentativa de Safatle em sua réplica do último domingo, comentarei apenas o rótulo "pós-estruturalista", que o autor insiste em utilizar.

Quando, muito raramente, me ocorre referi-lo, ponho todas as aspas e explico que, ao contrário do estruturalismo, o qual constituiu um movimento com um programa relativamente estabelecido e com participantes autodeclarados, jamais os autores chamados de "pós-estruturalistas" (sobretudo Deleuze, Foucault e Derrida) se definiram assim.

Como todo rótulo, esse serve apenas a quem quer lidar com a filosofia de modo enciclopédico, e não como debate efetivo de idéias. Confunde-se geração com homogeneidade teórica.

Na França, "pós-estruturalismo" é uma designação que causa espanto, pois só se justifica no âmbito norte-americano, onde principalmente os detratores sentiram a necessidade de rotulá-los, para poder melhor atacar, gerando uma falsa identidade, por vias negativas, como muitas vezes ocorre.

Incumbe à lucidez filosófica evitar o amálgama, esse sim típico de Wikipédia. Haveria muito mais a comentar sobre os problemas conceituais e metodológicos do livro, mas, para este espaço, considero suficiente.

EVANDO NASCIMENTO leciona na Universidade Federal de Juiz de Fora (MH).

Risco necessário
VLADIMIR SAFATLE
ESPECIAL PARA A FOLHA

Quero acreditar que esta será a oportunidade para uma confrontação de idéias que, infelizmente, não houve na resenha de Evando Nascimento.

Nada seria pior para os leitores que ver alguém abandonar tal oportunidade e repetir equívocos resultantes de leitura apressada, valer-se de expedientes pouco recomendáveis, como selecionar trechos descontextualizados, cobrar explicações e fundamentos de operações de interpretação que já forneci em outros livros e artigos ou ainda ignorar que o projeto de meu livro (compreender modificações estruturais em processos gerais de racionalização social) exige a constituição de campos de interface entre áreas como teoria social, psicanálise, estética e filosofia.

Não fui o primeiro a confrontar-se com uma necessidade dessa natureza. Certamente não serei o último. De toda forma, a título de esclarecimento sobre uma "questão de método", creio profundamente que uma dimensão maior da interpretação de textos da tradição filosófica consiste em identificar articulações e diálogos possíveis entre experiências intelectuais muitas vezes marcadas por contextos e épocas distintas.

Diga-se de passagem, alguém como Derrida (especialidade de Nascimento) fazia isso muito bem. Posso defender, com tranqüilidade, todas as articulações que sugeri e tenho certeza de que o tempo mostrará que algumas articulações mais "arriscadas" estavam corretas. Não se abandona o rigor filosófico quando se admite, conscientemente, a necessidade de assumir riscos. As melhores experiências intelectuais do século 20 nos ensinaram isso. Deveríamos aprender com elas.

VLADIMIR SAFATLE leciona filosofia na USP.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: TV São Judas
Data: 2008-10-01
Autor:
Comentário Boitempo:
Título: Entrevista com Vladimir Safatle
Matéria: O programa Arteletra, produzido pela TV São Judas, entrevista o Professor de Filosofia da USP, Vladimir Safatle, autor de Cinismo e falência da crítica, publicado pela Boitempo Editorial.

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Blog da II Trupe de Choque
Data: 2009-08-14
Autor: Julio Delmanto
Comentário Boitempo:
Título: A ironia e o cinismo num mundo em decomposição
Matéria:
Vladimir Safatle fala à Trupe sobre conceitos de seu novo livro, Cinismo e falência da crítica

Em mais uma atividade teórica como parte da criação do espetáculo Corpos Acumulados, a II Trupe de Choque recebeu no último dia 8 do 8, no auditório CAISM Philippe Pinel, o professor de filosofia Vladimir Safatle, autor do recém lançado Cinismo e falência da crítica (Boitempo), no qual parte do conceito de cinismo enraizado no cotidiano para explicar as relações sociais contemporâneas. O evento contou com cerca de 40 pessoas, e em breve estará disponível em vídeo no blog da Trupe.

Safatle começou pontuando a questão da subjetividade irônica, sobre como essa idéia de ironia está presente na noção moderna de sujeito. Ele vê o sujeito moderno como um sujeito irônico, numa experiência de transcendência em relação aos fenômenos e aos enunciados. “Estamos entrando numa era de ironização das formas de vida e fragilização dos princípios e normas.” A forma de vida, que é composta pela interação entre trabalho, desejo e linguagem, estaria assim permanentemente perpassada pela ironia, refletida também na chamada “crise de legitimidade” desses princípios e normas.

“A ironia se transformou num modo de viver, numa forma de estabilizar um mundo em decomposição” afirma o professor. O processo, no entanto, não é recente, uma vez que o exemplo citado é o de Machado de Assis, maior expressão da literatura brasileira e que apontou como o conjunto de idéias norteadoras da modernidade não tinha solo. Para Safatle, Machado era um ironista, retratou bem esse modo de lidar com um mundo em decomposição.

A partir dessa introdução, ele explica que sua intenção no livro novo era analisar uma patologia social: o cinismo. Primeiramente é importante observar que nos processos de racionalização que compõem a forma de vida hegemônica (que é a base para o padrão que organiza o conjunto da vida social) há um conjunto de valores e regras mas, além disso, há um modo de seguir esses valores e regras. “Há várias maneiras de seguir regras, o acordo para valores e normas não é necessariamente acordo quanto à aplicá-las.”

Vladimir Safatle aponta a existência atual de “núcleos muito fortes de consenso”, o que explica por exemplo um discurso político cada vez mais parecido e homogêneo. Os discursos hegemônicos mostram valores quase consensuais, mas no entanto “o peculiar é a capacidade que temos de, a partir desses valores, invertê-los ao aplicá-los”. O cinismo é “um horizonte de racionalidade no interior de nossas formas de vida”, afirma, é uma patologia social, “nossas formas de vida não se adequando a partir disso, num mundo em desagregação e generalização de situações de anomia” explicado e exemplificado pela presença de normas “que já não regulam mais”, não garantem como nem se serão aplicadas.

“O que é uma sociedade totalitária?”, pergunta Safatle. “Não é simplesmente organizada a partir da lei e do poder, mas é também onde nunca se sabe de que maneira a lei será aplicada, na verdade você estará sempre à margem da lei, ela sempre será aplicada contra você”. Como se constrói esse tipo de sociedade, que linguagem existe para lidar com esse tipo de situação, esse foi o objetivo de seu estudo, afirmou.

Safatle repisa a existência de uma “desagregação normativa fundamental na sociedade”, o que poderia surgir inclusive como contradição com a tendência de generalização dos dispositivos de segurança (e do Estado). Retoma Foucalt para voltar ao século 18,ao momento em que surge a categoria de população e a consequente necessidade do Estado interferir nesse setor para administrá-lo, não mais individualmente mas enquanto grupo. “Nossas formas de vida ainda são bipolares, o poder não age quando impõe uma norma mas quando consegue impor um certo modo de descontentamento em relação à norma” – gerenciar as margens é a função do poder, “não impor a ordem mas gerenciar a desordem”. A chave está em canalizar o descontentamento para dentro de seus próprios instrumentos, fazer com que se jogue “contra” o poder de acordo com suas regras e em seu campo.

Como exemplo do cinismo cita Silvio Berlusconi, que representa “um poder que ri de si mesmo” . A prática política de Berlusconi diz exatamente que seguir a lei significa saber flexibilizá-la, saber aplicá-la somente ao outro. Ele articula duas disposições contrárias, “alguém que age como uma criança que é pega fazendo algo errado e ao mesmo tempo fala como um ditador”.

E a arte, o pensamento crítico? Onde ficam nisso tudo? “Se há uma função do pensamento hoje é encontrar na arte os modelos para superação dessa situação”, afirma Safatle. “A arte sempre desmente o caráter fundamental de sua função social, consegue sintetizar formas que outras esferas da vida social não conseguem mais, ensina a elas outras formas de dizer as coisas.”

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Revista Cult
Data: 2009-07-31
Autor: Vladimir Safatle
Comentário Boitempo:
Título: A democracia para além do estado de direito?
Matéria:
O desafio de pensar a democracia em tudo aquilo que se encontra à margem do Estado de direito

Mas o Estado democrático excede os limites tradicionalmente atribuídos ao Estado de direito. Experimenta direitos que ainda não lhe estão incorporados, é o teatro de uma contestação cujo objeto não se reduz à conservação de um pacto tacitamente estabelecido, mas que se forma a partir de focos que o poder não pode dominar inteiramente." Quem diz essas frases não é um adepto da esquerda revolucionária que estaria à procura do melhor momento para solapar as bases do Estado de direito. Essas são frases de Claude Lefort em A invenção democrática: um livro largamente dedicado, ao contrário, à crítica das sociedades burocráticas no antigo Leste Europeu. Nessas frases, estão sintetizadas algumas reflexões maiores sobre a relação intrincada entre justiça e direito. Relação que ultimamente tendemos a ignorar, como se tudo aquilo que acontecesse à margem do Estado de direito fosse necessariamente ilegal e profundamente animado de premissas antidemocráticas. Pois talvez tenhamos perdido a capacidade de pensar qual o sentido desta democracia que "excede os limites tradicionalmente atribuídos ao Estado de direito". Um ponto de excesso que se mostrou, ao longo da história contemporânea, um motor fundamental das dinâmicas do político.

Talvez tenhamos perdido a capacidade de pensar a democracia como ponto de excesso em relação ao Estado de direito porque acreditamos que tudo o que se coloca fora do Estado de direito só poderia ter parte com o mais claro totalitarismo. Quem está fora do Estado de direito parece se colocar em uma posição soberana, posição destes que poderiam não se submeter à lei, modificar continuamente a lei ao bel-prazer dos casuísmos e circunstâncias. Vemos apenas dois candidatos ocupando essa posição: o criminoso que viola abertamente a lei que garante a segurança do Estado de direito ou (e aí as coisas começam a se complicar) o legislador que afirma que, em situações de exceção, como em caso de guerra (mas sabemos hoje como é cada vez mais complicado distinguir estado de guerra e estado de paz) ou de crise (mas sabemos hoje como há sempre uma crise grave à espreita), certos dispositivos legais podem ser suspensos.

No entanto, é possível que exista um terceiro caso de excesso em relação ao Estado de direito, um excesso muito bem posto por Jacques Derrida por meio da seguinte afirmação, que encontramos em Força de lei: "Quero logo reservar a possibilidade de uma justiça, ou de uma lei, que não apenas exceda ou contradiga o direito, mas que talvez não tenha relação com o direito, ou mantenha com ele uma relação tão estranha que pode tanto exigir o direito quanto excluí-lo". Pode, pois, a justiça não apenas exceder o direito, mas manter com ele uma relação tão estranha que pareça se colocar em Uma indiferença soberana? Gostaria de insistir que essa possibilidade, longe de solapar e fragilizar a democracia, é o que a funda e a fortalece. Pois essa possibilidade é um outro nome para aquilo que normalmente chamamos de "política".

Estados ilegais
Conhecemos situações nas quais a justiça se dissocia do direito. Trata-se de situações nas quais nos deparamos com um "Estado ilegal". Mesmo a tradição política liberal admite, ao menos desde John Locke, o direito que todo cidadão tem de se contrapor ao tirano, de lutar de todas as formas contra aquele que usurpa o poder e impõe um Estado de terror, de censura, de suspensão das garantias de integridade social. Nessas situações, a democracia reconhece o direito à violência, já que toda ação contra um governo ilegal é uma ação legal

. Vale a pena insistir nessa questão. Podemos dizer que um dos princípios maiores que constituem a tradição de modernização política da qual fazemos parte afirma que o direito fundamental de todo cidadão é o direito à rebelião. Não creio ser necessário aqui fazer a gênese da consciência da indissociabilidade entre defesa do Estado livre e direito à violência contra um Estado ilegal. No que diz respeito ao Ocidente, é bem provável que sua consciência nasça da Reforma Protestante com a noção de que os valores maiores presentes na vida social podem ser objeto de problematização e crítica. Ela está presente, por sua vez, no artigo 27 da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1793, documento fundador da modernidade política. Artigo que afirma: "que todo indivíduo que usurpe a soberania seja assassinado imediatamente pelos homens livres". Ainda hoje, ela aparece no artigo 20, parágrafo 4 da Constituição alemã como "direito à resistência" (Recht zum Widerstreit). Encontramos um direito similar enunciado em várias Constituições de estados norte-americanos (New Hampshire, Kentucky, Tennesse, Carolina do Norte, entre outros). De maneira sintomática, isso demonstra como aqueles que procuram transformar os que participaram da luta armada contra o regime militar brasileiro em "terroristas" colocam-se aquém de um conceito substancial de democracia.

Lembremos ainda que não devemos compreender a ideia fundamental desse direito à resistência simplesmente como o núcleo de defesa contra a dissolução dos conjuntos liberais de valores (direito à propriedade, afirmação do individualismo etc.). Na verdade, em seu interior encontramos a idéia fundamental de que o bloqueio da soberania popular (e temos todo o direito de discutir o que devemos compreender por "soberania popular") deve ser . respondido pela demonstração soberana da força. Que a democracia deva, por meio desse problema, confrontar-se com aquilo que Giorgio Agamben chama de "o problema do significado jurídico de uma esfera de ação em si extrajurídica", ou, ainda, com a "existência de uma esfera da ação humana que escapa totalmente ao direito", que ela deva se confrontar com uma esfera extrajurídica, mas nem por isso ilegal, eis algo claro. Pois devemos insistir aqui que, mesmo em situações em que não estamos diante de um "Estado ilegal", o problema da dissociação entre justiça e direito se coloca.

Uma sociedade que tem medo da política
Muitos gostam de dizer que, no interior da democracia, toda forma de violação contra o Estado de direito é inaceitável. Mas e se, longe ser de um aparato monolítico, o direito em sociedades democráticas for uma construção heteróclita, em que leis de várias matizes convivem formando um conjunto profundamente instável e inseguro? Por exemplo, nossa Constituição de 1988 não teve força para mudar vários dispositivos legais criados pela Constituição totalitária de 1967. Ainda somos julgados por tais dispositivos. Nesse sentido, não seriam certas "violações" do Estado de direito condições para que exigências mais amplas de justiça se façam sentir? Foi pensando em situações dessa natureza que Derrida afirmava ser o direito objeto possível de uma desconstrução que visa expor as superestruturas que "ocultam e refletem, ao mesmo tempo, os interesses econômicos e políticos das forças dominantes da sociedade". Quem pode dizer em sã consciência que tais forças não agiram e agem para criar, reformar e suspender o direito? Quem pode dizer em sã consciência que o embate social de forças na determinação do direito termina necessariamente da maneira mais justa?

Por essas razões, a democracia admite o caráter "desconstrutível" do direito, e ela o admite por meio do reconhecimento daquilo que poderíamos chamar de legalidade da "violação política". Pacifistas que sentam na frente de bases militares a fim de impedir que armamentos sejam deslocados (afrontando assim a liberdade de circulação), ecologistas que seguem navios cheios de lixo radioativo a fim de impedir que ele seja despejado no mar, trabalhadores que fazem piquetes em frente a fábricas para criar situações que lhes permitam negociar com mais força exigências de melhoria de condições de trabalho, cidadãos que protegem imigrantes sem-papéis, ocupações de prédios públicos feitas em nome de novas formas de atuação estatal, Antígbna que enterra seu irmão: em todos esses casos o Estado de direito é quebrado em nome de um embate em torno da justiça.

No entanto, é graças a ações como essas que direitos são ampliados, que a noção de liberdade ganha novos matizes. Sem elas, certamente nossa situação de exclusão social seria significativamente pior. Nesses momentos, encontramos o ponto de excesso da democracia em relação ao direito. Uma sociedade que tem medo desses momentos, que não é mais capaz de compreendê-los, é uma sociedade que procura reduzir a política a um mero acordo referente às leis que atualmente temos e aos modos que atualmente temos para mudá-las (como se a forma atual da estrutura política fosse a melhor possível -levando em conta o que é o sistema político brasileiro, pode-se claramente compreender o caráter absurdo da colocação ).

No fundo, esta é uma sociedade que tem medo da política e que gostaria de substituí-Ia pela polícia. Pois a violação política nada tem a ver com a tentativa de destruição física ou simbólica do outro, do opositor, como vemos na violência estatal contra setores descontentes da população ou em golpes de Estado. Antes, ela é a força da urgência de exigências de justiça.É claro que devemos compreender melhor o que devemos chamar aqui de "justiça". Não se trata de alguma forma de princípio regulador posto. Certamente, ela está mais ligada à experiência material do bloqueio de reconhecimento e do sofrimento social em relação às imposições produzidas pelas condições socioeconômicas e disciplinares de nossas formas de vida.

Notemos como a suspensão da lei em nome do sofrimento social e do bloqueio de reconhecimento é qualitativamente distinta da suspensão da lei feita por práticas totalitárias. Pois a suspensão política.é a maneira de dizer que o direito se enfraquece quando não é mais capaz de reconhecer suas próprias limitações. E isso é feito a partir de uma outra espécie de "direito" (as aspas são de rigor) cujo fundamento, como dizia Lefort, "não tem figura", é marcado por um "excesso face a toda formulação efetivada", o que significa que sua formulação contém a exigência de sua reformulação. É só assumindo esse excesso que a democracia pode existir.

Vladimir Safatle, professor de filosofia da USP. É autor de Cinismo e falência da crítica (Boitempo, 2008), A paixão do negativo: Lacan e a dialética (Unesp, 2006), entre outros.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Revista Filosofia
Data: 2011-07-05
Autor: Da Redação.
Comentário Boitempo:
Título: Projeto Revoluções: da política do sensível ao insensível
Matéria:


Um time de pensadores participou, nos dias 20 e 21 de maio, do Seminário Revoluções – Uma política do sensível, realizado no SESC Pinheiros, em São Paulo, que integra o Projeto Revoluções (http://revolucoes.org.br/). Foi um momento em que puderam expor suas leituras sobre diferentes ângulos entre estética, política e história.

Nesse grupo, estavam o cientista político Emir Sader, a filósofa Marilena Chauí, o sociólogo Michael Löwy, os filósofos Slavoj Zizek, Bernard Stiegler e Vladimir Safatle, entre outros.

O evento foi promovido pelo Instituto de Tecnologia Social – ITS BRASIL, a Secretaria Nacional dos Direitos Humanos da Presidência da República, em parceria com o SESC-SP e a Boitempo Editorial.

A revista Filosofia entrevistou o chileno naturalizado brasileiro, Vladimir Pinheiro Safatle, 37 anos, filósofo, graduado e pós-graduado pela Universidade de São Paulo (USP), com doutorado pela Universidade Paris VIII. Atualmente é professor da Teoria das Ciências Humanas, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, e um dos coordenadores da Sociedade Internacional de Psicanálise e Filosofia.

Durante esse bate-papo, ele tratou da forma de ruptura interpretada como outra leitura da autonomia estética e da dicotomia que envolve o processo da sustentabilidade.

FILOSOFIA – O que você quer dizer ao tratar a forma de ruptura como outra leitura da autonomia estética?

Vladimir Pinheiro Safatle -
É uma maneira de insistir que a verdadeira revolução não é simplesmente a construção de distribuição de renda na sociedade, mas é a promessa de nova forma de vida. Um belo exemplo é a Revolução Russa. Tem adesão muito forte de grandes artistas, como Kandinsky e Maliévitch, que acreditavam que esse era o momento, não só de reconstrução socioeconômica, mas de outra determinação antropológica.

FILOSOFIA – Como avalia o processo nas últimas décadas, das manifestações com a banedeira de sustentabilidade? Podem ser consideradas, de fato, revoluções, na “promessa de uma nova forma de vida”?

Safatle -
Avalio esse tema com certas reservas. No início, dentro da autojustificativa, havia a temática da nova aliança entre a sociedade e a natureza. Por um lado, isso foi resultado de um momento importante, como maio de 68 [revolução estudantil e operária]. O movimento e partidos ecológicos surgiram nesse contexto. Hoje em dia, o impressionante é ver que houve facilmente a adequação às exigências dos mercados financeiros, é uma espécie de bolha verde.

FILOSOFIA – Qual exemplo se pode dar, neste sentido?

Safatle -
O filme Wall Street, do diretor norte-americano Oliver Stone, exemplifica bem essa situação. Ele conta a história da crise financeira de 2008, e tem como personagem central um jovem especulador financeiro que parece ter algo semelhante ao que um dia se chamou pudor. O seu objetivo é capitalizar uma empresa que pretende produzir energia limpa. No entanto, ele tem consciência que, após o estouro da bolha financeira, os mercados irão em direção à bolha verde. Isso quer dizer que sabe para onde o dinheiro segue. Ao mesmo tempo, o seu pudor caminha com a ganância.


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05/03/2013 - Marx: a criação destruidora
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