Quando a editora-assistente, Rosi Rico, pediu uma colaboração para a Biblioteca Essencial e sugeriu o tema dez livros de economia para leigos, tive um ligeiro acesso de pânico. Vinte anos de jornalismo econômico não me haviam sido suficientes para hierarquizar a extensa bibliografia sobre o tema. Tentei resistir, mas Rosi tinha argumentos para me persuadir a assumir a tarefa temerária.
Busquei o auxílio de uma manobra diversiva: "Rosi, é um assunto muito amplo. Em vez de dez livros posso citar dez autores?". Não, não podia. Ela foi delicada, mas finne e taxativa: o padrão da seção são dez livros. Nunca antes eu ouvira um "se virà' tão elegante.
A obrigação de elaborar a lista deu trabalho e me deixou cheio de dúvidas - o que, dizem, é saudável. Em uma semana, criei diferentes relações, todas com mais de dez obras. Uma só de clássicos, outra de temas mais populares, algumas mistas. Insatisfeito com todas, optei por uma sem o glamour das obras clássicas, mas que me pareceu mais adequada à proposta da seção.
A escolha recaiu sobre autores brasileiros. É uma forma de tratar do tema no geral, mas com uma corzinha local. Uma exceção foi admitida: o engraçado - mas sério - estudo de um jornalista inglês, recém-lançado no país.
É possível que os mais versados torçam o nariz. A lista ignora teóricos importantes como Adam Smith ou John Maynard Keynes. Mas os neófitos que eventualmente se aventurarem pela proposta - não necessariamente na seqüência em que se encontra - verão que economia não é bicho-de-sete-cabeças. No máximo três.
O cardápio começa leve, com A aventura do dinheiro, de Oscar Pilagallo, deliciosa narrativa de como surgiu a moeda antesmesmo de nos tomarmos seus escravos. O texto elegante e preciso dá conta da história e ainda insinua diversos conceitos úteis.
O que é economia, de Paul Singer, obra curta e fina, é leitura rápida e eficaz. Discorre sobre vários aspectos, dá uma pincelada na história do pensamento econômico e satisfaz a necessidade basilar de conhecimento. Em seguida, convém dar uma espiada na
definição de capitalismo e entender como ~ e por que ele resiste. Isso está em O que é ~ capitalismo, de Afrânio Mendes Catani.
O básico termina aqui. De agora em diante, o que aparece são obras mais profundas, cujo objetivo é menos conhecer a economia e mais compreender como ela funciona. Para começar, dois clássicos, complementares e essenciais: História econômia do Brasil, de Caio Prado Júnior, e Formação econômiaJ do Brasil, de Celso Furtado.
Ainda na linha histórica, A economia brasileira ao alcance de todos, de Eliana A. Cardoso, analisa fenômenos recentes, como inflação e dívida externa, que tiveram forte influência sobre a atividade produtiva do país.
Já Paulo Nogueira Batista Júnior oferece uma visão crítica em A economia como ela é, título que remete a um de seus autores favoritos, Nelson Rodrigues, e sua célebre coluna "A vida como ela é", da década de 50. Fiel ao estilo rodriguiano, o autor revela um retrato nu e cru da realidade econômica.
A próxima sugestão pode soar como uma capitulação ao modismo. O valor do amanhã, de Eduardo Giannetti, é precursor do quadro homônimo que o próprio autor apresenta, aos domingos, na televisão. Os méritos da obra - didatismo, fluência e inteligência - acabaram vencendo o preconceito segundo o qual a TV é o império da banalidade.
A exceção da lista traz algo bem contemporâneo. O economista clandestino, do inglês Tim Harford, faz uma bem-humorada viagem por fenômenos cotidianos e pelo mundo do consumo. O subtítulo fala por si: "Por que os ricos são ricos, os pobres são pobres e você nunca consegue comprar um carro usado decente".
Para encerrar de uma maneira a não ficar devendo nada a ninguém, optei por uma obra de referência, Dicionário de economia, de Paulo Sandroni. Dividido em verbetes, traz praticamente todos os conceitos, mastigadinhos. É perfeito para tirar as saudáveis dúvidas que irão surgir
com essa leitura toda. |