RIO - Preocupado em escrever em um "português corrente", sem anglicismos e sem o uso excessivo de expressões estrangeiras ou de termos técnicos e fórmulas matemáticas, o economista Paulo Nogueira Batista Jr., em seu livro "A Economia como ela é...", investe naquilo que classifica como "as polêmicas em que me envolvi na década de 90".
Quais sejam, a controvérsia sobre a globalização, a crítica à dolarização, o câmbio e a defesa dos controles de capitais, entre outras questões que alinhavaram o processo de desmonte da economia nacional, iniciado por Fernando Collor e melhor conduzido pelo atual presidente Fernando Henrique Cardoso. Entretanto, o autor admite as enormes dificuldades que enfrentou para manter-se em combate.
"Creia, leitor, nem sempre foi fácil sustentar essa polêmica. O ambiente não era (e ainda não é) muito propício. A defesa da autonomia nacional era estigmatizada, urbi et orbi, como um anacronismo, uma ideologia superada e um obstáculo à modernização e à integração internacional do país. Os seus (poucos) defensores passaram a ser vistos como Policarpos Quaresmas, como portadores de conceitos velhos e ultrapassados", escreve Batista Jr., na apresentação, para em seguida reconhecer, de forma pouco usual a um economista:
"Nesses anos, eu me senti, às vezes, inteiramente só. Uma solidão teimosa e orgulhosa, é certo, mas marcada por inseguranças e dúvidas. A coerência e tenacidade que o leitor poderá, talvez, encontrar nos textos deste livro são, em parte, artificiais, simuladas. Foram construídas em meio a sofrimentos e hesitações", revela.
Apesar de todas as angústias que lhe inundaram a alma em meio a solidão dos que não sucumbiram diante de "consensos" e do esmagamento, refletido diariamente na grande mídia, do pensamento único, o que animou o economista da FGV de São Paulo a escrever e reescrever para o livro muitos dos artigos e ensaios nele reunidos foi a percepção de que, nos anos finais dessa década que encerra o século, "o brasileiro começa agora a se dar conta de que foi enganado, miseravelmente enganado".
Os benefícios de uma abertura econômica sem critérios e de uma inserção do Brasil no mercado internacional não chegaram e nem irão chegar à vida comum dos cidadãos deste país, como constata. Em contrapartida, o Brasil obteve, ao longo dos últimos períodos, uma média de crescimento econômico inferior à obtida nos anos da chamada "década perdida", ao lado de taxas de desemprego recordes.
"A característica fundamental dessa estratégia que ora naufraga foi uma presunção geral, assumida quase sempre dogmaticamente, em favor da chamada globalização, da abertura comercial e financeira, da desregulamentação e da diminuição do papel do Estado na economia. E, como contrapartida, um preconceito arraigado, não raro irracional, contra o nacional, o público e o estatal", escreve Batista Jr, para quem a economia brasileira aumentou os seus desequilíbrios externos, tornando-se ainda mais vulnerável às instabilidades de além fronteira.
Daí, uma das conclusões que perpassa o livro: "Os países do Primeiro Mundo exportaram essa agenda para os incautos da periferia, mas nunca a seguiram inteiramente, nem mesmo no auge do prestígio do modelo liberal-internacionalista. Infelizmente, é nas economias menos desenvolvidas que ela pode produzir os piores estragos".
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