Não é só aqui.
É em toda parte. Aqui até que são menos violentas, apesar de, por exemplo, no Rio, professores ganharem mais por trabalharem em "área de risco". Nos Estados Unidos é aquele horror. Lá as escolas têm detetores de metal porque os alunos vão armados como se fossem para a guerra. A última vez que entrei numa universidade lá, fiquei chocado: portas que só abrem com senhas, e se você não tem um cartão, tá fora, não entra nem na biblioteca.
Na França, por exemplo, a violência nas escolas virou epidemia. Leio agora que Sarkozy foi visitar o Liceu Gagny que uma semana antes havia sido invadido por uma gangue em "expedição punitiva". Detalhe: " expedição punitiva" era o termo que os fascistas italianos usavam quando saíam para bater e matar os adversários. Na França há 100 escola consideradas nichos de brutalidade. Vejo fotografia de diretores de escolas feridos pelos alunos. Claro, os alunos se justificam: "o professor passa todo o tempo a nos humilhar dizendo que não servimos para nada". É verdade, o ensino francês (e de alguns outros paises) curte isto. Na França e na Inglaterra ainda há pouco havia (ou há?) a palmatória.
Vamos ser honestos: o ensino que havia em alguma escolas estava mais para tortura medieval. Um autoritarismo criminoso, sádico sobre adolescentes aterrorizados. Que o digam os que estiveram em internatos. Há uma vasta literatura e filmes sobre isto, além do recente "Entre os muros da escola", que está mexendo com a cuca de tanta gente.
Na novela "Caminho das Indias" apresentaram uma cena em que um aluno, repreendido, debocha da professora, alegando que não vai estudar, optou pela vagabundagem, porque vai se virar melhor do que a professora que ganha uma miséria. O aluno está certo, pois enquanto a profissão da professora não for valorizada, inclusive salarialmente, parte da crise não será resolvida. O aluno está errado, porque a professora fez bem em optar pela vida e não pela morte, em optar pela solidariedade e não pelo fraude e pelo crime.
Outro dia tive uma experiência contrastante: participei do lançamento de uma antologia- A escola e a letra(Ed. Boitempo), para a qual Flavio Aguiar e Og Doria selecionaram textos de autores brasileiros relatando como se dava o aprendizado antigamente. Num lançamento lá em São Paulo, no entanto, depois de ter lido para o público, o poema "Gymnasium" que está nessa seleta, me dei conta que estava falando de uma escola totalmente diferente da de hoje. Uma escola em que havia hierarquia e disciplina. Reprovações, repreensões e castigos eram aplicados. Ou seja, havia uma ordem, mas, convenhamos, a violência era do sistema, da instituição. E isto não era visto como violência, posto que tal educação produzia resultados para a comunidade. Os alunos tinham que se submeter. Entendia-se que a educação pressupunha isto.
A partir dos anos 50 começou o " liberou geral". Em muitos aspetos houve melhoras, em outros, piora. O questão, enfim, que deve ser discutida em intermináveis seminários, é essa: será que o ser humano só produz e se organiza socialmente através da repressão?
Ou então: por que confundimos liberdade com permissividade e democracia com licenciosidade?
Por que à primeira brecha no sistema viramos uma horda primitiva?
Não é possível encontrar um meio termo saudável e responsável entre o autoritarismo e a repressão de ontem e a rebeldia irracional das gangues?
(*) Estado de Minas/Correio Braziliense- 19.04.2009
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