O lançamento do livro A Escola e a Letra, organizado por Flávio Aguiar e Og Dória, e a inauguração do site Memórias da Literatura Infanto-juvenil, recupera o debate sobre a importância da leitura na formação de crianças
Machado de Assis, Monteiro Lobato, Mário de Andrade. Grandes escritores brasileiros que, entre outros trabalhos, registraram suas impressões sobre seu tempo de escola. Textos desses e de outros grandes escritores que remetem ao período escolar compõem A escola e a Letra, coletânea organziada pelo professor e jornalista Flávio Aguiar e do geógrafo Og Dória, lançada pela Boitempo Editorial. Entre contos, crônicas, trechos de romances e memórias, os dois organizadores mostram as marcas do processo de aprendizagem pela perspectiva dos cânones da literatura brasileira.
O filósofo iluminista Voltaire (1694 - 1778) já dizia: a leitura engrandece a alma. Flávio Aguiar defende que ler é uma revelação, uma abertura, um passo para a liberdade. A escritora Regina Zilbermann, especialista em literatura infantil, acredita que não só ler, como ouvir histórias, fortalece o imaginário.
Mas é possível ensinar a gostar de ler? Como quase tudo na infância, o incentivo começa em casa, já que os filhos se espelham nos pais. "É preciso criar situações para a criança desenvolver essa busca de livros, de narrativas e propiciar o acesso ao impresso", diz Zilbermann, que não responsabiliza exclusivamente a escola na função de oportunizar o acesso ao livro.
As instituições de ensino têm papel importante no incentivo à leitura, ainda mais hoje que os alunos ficam mais tempo no colégio ou em função dele. Porém, estimular a vontade e a curiosidade nem sempre é uma tarefa fácil. A começar pelos títulos. Em uma sala de aula grande, com 40 alunos, nem todos terão o mesmo acompanhamento e interesse pelos mesmos conteúdo. Um exemplo citado por Flávio Aguiar é um livro como Guerra e Paz, que provavelmente não vai seduzir uma criança de oito anos. "Mas isso não quer dizer que ela não poderá se interessar por aquelas passagens de Vidas Secas que falam do mundo infantil empobrecido dos filhos de Fabiano e de Sinhá Vitória", disse.
Outros empecilhos à leitura são as tantas mídias concorrentes, como cinema, televisão e internet. O impresso precisa ser cada vez mais incitado para ser acolhido, ainda mais por quem está só começando. Afinal, dificilmente uma criança que não é estimulada pelos pais vai atrás de um livro. Nesse sentido, foi lançado recentemente o site Memórias da Literatura Infanto-juvenil, no qual escritores falam sobre suas experiências de amor pela leitura.
O site, lançado em meados de abril, apresenta detalhes da trajetória e da obra de 45 escritores infanto-juvenis em texto, áudio e vídeos. Em seus depoimentos, escritores como Ziraldo, Ruth Rocha, Tatiana Belinky e Ana Maria Machado contam como se envolveram com a leitura e tomaram gosto pelo hábito.
A desauratização da figura do escritor pretendida pelo site é uma das inicativas que José Santos, diretor do Museu da Pessoa e idealizador do projeto, acredita que irá aproximar a leitura do universo dos jovens. "A gente acha que o professor vai poder usar isso de uma maneira muito interessante na sala de aula. Ao invés de pegar a Tatiana Belinky 'porque ela é a vovó dos livros', nós vamos pegá-la 'porque ela é uma menina completamente levada e peste como vocês'. Então essa identificação no mundo da infância é um ponto de partida para o professor colocar o escritor e o leitor como se eles fossem iguais", explica.
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