Em seu importante texto sobre o direito à literatura, Antonio Candido defende o acesso universal às artes como um direito básico de todo ser humano, pois nelas a experiência pessoal e coletiva, refletida em forma e expressão, pode ser pensada, compartilhada e criticada. A literatura, fundamental para esse processo de formação do indivíduo e das nações, confunde-se assim, desde os primeiros anos de nossas vidas, com a própria experiência do aprendizado, no sentido mais amplo do termo. Das cantigas de roda dos jardins de infância à leitura dos clássicos no ginásio, dos poemas de amor cometidos na adolescência à descoberta do mundo nos livros de aventuras, o lugar privilegiado da literatura na educação é curiosamente revelado, para além de nossas memórias, pelas próprias obras literárias que têm como tema a experiência escolar.
A antologia A escola e a Letra, organizado por Flávio Aguiar e Og Dória, contém uma bela seleção de obras da literatura brasileira (poemas, contos, crônicas, cenas teatrais e capítulos de romances) que tratam do assunto. Expostos cronologicamente, os vários textos apresentam um panorama não apenas da história da escola no Brasil (dos jesuítas aos cursinhos, passando pelos internatos e colégios militares), como também da sempre conturbada relação entre estudantes e professores, nos vários momentos de nossa não menos conturbada história social e política.
Padre Vieira lamentava, nos tempos da colônia, as dificuldades do ensino na Terra de São Tomé, enquanto Gregório de Matos descrevia ironicamente a "vida escolástica" do estudante que buscava "ser Quixote com as damas". À porta do Ateneu, o pai recomendava ao filho, já no Império, "coragem para a luta", e Joaquim Nabuco logo em seguida recordava como o colégio foi o berço de seu liberalismo, insuflado pelas leituras de Heine e Victor Hugo. A normalista tímida, retratada por Adolfo Caminha, desperta para as primeiras paixões numa aula de geografia, enquanto Machado denuncia a "educação pela vara", não seguida por um pai atordoado, numa cena de Artur Azevedo, quando busca provar ao filho que conhece o sentido do termo "plebiscito". Já na República, Lima Barreto exalta os grandes mestres da Universidade da Batávia, modelo javanês a ser seguido, enquanto Monteiro Lobato conta a história da vida e morte do primeiro santo da gramática, "mártir número um da colocação dos pronomes". Na São Paulo modernista, Oswald "escabriava" pelas salas brancas do colégio, fugindo do "diretor vermelho que saía do solo atrás da barriga e da batina", enquanto um filho da elite cafeeira aprendia mais do que um soneto com sua bela tutora alemã. Anos mais tarde, Dummond transforma um teste em poesia, Jorge Amado narra o amor dos capitães de areia pelas aventuras dos livros que não podiam ler, Rubem Braga aprende inglês e Graciliano doma finalmente a caneta, que lhe escorregava pelos dedos.
Comparado com antologias semelhantes de outras literaturas, encontramos no livro os conhecidos traços da contraditória especificidade brasileira: o predomínio do humor, ao lado da constante presença de questões políticas mais amplas, que vão do empenho das gerações românticas ao engajamento estudantil durante a ditadura. Na lembrança de nossos escritores (como os gaúchos Érico Veríssimo e Flavio Aguiar) o futebol do recreio é tema tão fundamental quanto a denúncia do autoritarismo dos professores carrancudos. O tom sombrio, presente por exemplo nos clássicos que Joyce e Musil escreveram sobre a experiência da escola, adquire entre nós outras cores, sem perder o gume da crítica.
Falando em cores, o livro chama ainda a atenção pelo interessante projeto gráfico de Ricardo Ohtake, que emoldura cada texto numa concepção diferente de página, com o objetivo talvez de atrair os leitores mais jovens, acostumados à diversidade de fontes e panos de fundo das telas de computador. Embora o resultado seja desigual, a tentativa é interessante. Ironicamente, o único texto quase ilegível é o de Clarice Lispector; talvez ela gostasse do resultado, pois sempre exigiu de seus leitores o máximo de concentração.
Numa época em que a educação está novamente na ordem do dia, devido justamente às péssimas notícias sobre a qualidade de nossas escolas, a publicação desse livro pode contribuir para, literalmente, dar vida ao debate, afastando a visão burocrática e economicista que reina sobre o tema. A cada página desse volume, vemos que a vida escolar e os processos de aprendizagem não podem ser reduzidos a números e "indicadores de desempenho"; são muito mais do que isso, como nos mostra, dentro e fora da sala de aula, nossa própria literatura.
Jorge de Almeida é professor de teoria literária na Universidade de São Paulo.
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