Salve turma que mata no peito!
E que calorão, hein?
Também passei um calorão esses dias quando decidi dar uma folheada num camarada chamado Slavoj Zizek, que escreveu um Livro entitulado “Lacrimae Rerum”, em 2009, e que chegou em minhas mãos no fim do ano passado.
Ao que me parece, o filósofo defende no livro a tese de que estamos perdendo a capacidade de lidarmos com as imperfeições da vida, expressas em realidades simbólicas (ou seja, a própria arte), e de utilizarmos essa capacidade para fomentarmos novos caminhos a serem seguidos em busca da resposta para as clássicas perguntas: “quem somos, de onde viemos e para onde vamos”. Ele percorre essa ideia partindo de uma de suas melhores facetas: a de crítico cinematográfico.
Já de início, tece comentários ilustrando a excessiva humanização com que o cinema contemporâneo tem criado seus últimos heróis. Um exemplo citado é o do filme “Munique”, de Steven Spielberg, que escancaradamente trata a milícia israelense que “caça” os terroristas que atentaram contra uma delegação olímpica de seu país – e que durante a caçada comete inúmeras barbaridades – como homens sensíveis, comuns, cheios de dúvidas e que conviveriam harmonicamente com quaisquer outros indivíduos, em qualquer outra situação.
Para o autor, essa humanização, que também se apresenta na construção dos “novos” super-heróis Batman e Homem-aranha, serve para sensibilizar o público e adestrá-lo a se sentir emocionado mesmo ante as mais hediondas ações dos supostos heróis. Ou seja, em última análise, todas as ações destes heróis, por mais estapafúrdias que sejam, são recebidas de antemão como necessárias e possíveis, já que a humanização presente nas dúvidas passionais dos heróis as legitima.
O caro e raro leitor já percebeu que o objetivo final do Coringa é retirar a máscara do Batman e revelar uma “verdade”? Ora, todo o sistema funciona bem se as verdades forem ocultas. Matrix que o diga. Cabe ao sistema esconder o que não lhe interessa para funcionar como deve. Contudo, fica a pergunta: quem deveria mentir e esconder a verdade não é o vilão? Ou estamos legitimando a mentira?
Bom, deixando o papo cabeça de lado e entrando no papo dor de cabeça, tentei assistir “À Procura de Eric”, de Ken Loach, em meio aos gritos de Otto, o terrível. Entre um stop e outro para amansar a pequena fera, fiquei com a impressão de que o diretor deste filme tentou seguir justamente o caminho oposto ao descrito por Zizek. O enredo desta obra se desenvolve na relação imaginária que um carteiro constrói com seu grande ídolo, o jogador Eric Cantona (Manchester United / Seleção Francesa). Eric Cantona é conhecido por proferir frases polêmicas e com aspirações de serem cabais. O autor utiliza tais ditos na trama de maneira com que as frases que foram emitidas pelo jogador ao longo de sua carreira sirvam de conselhos aos problemas que o carteiro Eric Bishop encontra em seu dia-a-dia.
Essa relação da frustração de um homem comum que busca dar sentido à sua vida, e que para tal utiliza a mesma verbalização que seu ídolo um dia usou para dar cabo de outros problemas em outra realidade e contexto, faz com que percebamos de que os heróis somos nós mesmos. Aparentemente Ken Loach nos diz que a esperança somos nós. O próprio título em português já brinca com o tema central do filme: qual Eric vai se encontrar na procura?
Por isso Ken Loach ainda me permite acreditar no Cinema como arte.
Bão. Ficam as dicas e fica também a reclamação: Zizek só chegou a mim por encomenda. E não chegou em minha casa, pois o correio não vai até lá. O filme que citei... ahhhhh! Esse aí foi ainda mais difícil de achar. Mesmo sendo figurinha fácil nas locadoras da capital, tive que pedir para um amigo fazer cópia, já que aqui em Matinhos, capital nacional de Michel Teló, eu não achei. O novo homem caiçara vai precisar de uma nova locadora, de um Cinema e de uma Livraria. Senão sei lá!
Dicas dadas, até outro dia!